NOTA CEII SP #4 [05/04/2018]

No livro de Ab’saber a questão do corpo transferencial de Lula é bastante recorrente, é a partir desse referencial, embora não explicado conceitualmente, que ele tenta explicar como foi possível a composição de uma figura tão controversa: amado pela elite financeira e pela população mais pobre.

Na entrevista de Raul Pacheco, professor da PUC e psicanalista, ele define a figura de Lula como uma liderança que não está apoiada somente em ideais abstratos ou promessas futuras, mas seria uma figura justificada concretamente por suas relações com o povo. Segue a citação:

Do ponto de vista da psicanálise, sabemos que muitas vezes uma liderança se apoia apenas sobre um ideal abstrato, de um líder ou ideia que consiga capturar a esperança das pessoas e represente uma visão idealizada de uma perspectiva futura: uma aposta num desejo de futuro ainda não realizado, digamos assim. (Link para matéria:  https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2018/04/07/Por-que-Lula-desperta-tanto-amor-e-%C3%B3dio-segundo-este-psicanalista?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook). © 2017 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Chamamos a atenção para ‘a ideia que consiga capturar a esperança das pessoas’. Sabemos que durante o governo Lula uma de suas principais ações foi o Bolsa Família como distribuição de renda, sengundo Ab’saber:

Muito se falou a respeito deste forte golpe econômico e de engenharia social do governo. Ao todo, as bolsas sociais brasileiras, que vão de R$22 a, no máximo, R$200, dependendo dos vários critérios familiares em jogo, jamais ultrapassaram o custo total de 1% do PIB (Ab’saber, 2016, p. 21)

Embora a população tenha de fato sentido diferença na sua relação com o consumo, – a redefinição das classes sociais excluindo o termo miséria que passou a se chamar pobreza, e pobreza que passou a ser denominada como classe média- poderíamos entender essa ação como uma ‘captura da esperança das pessoas’.

Segundo Safatle (em um vídeo que não consegui encontrar até o momento), não houve no Brasil durante o período lulo-petista qualquer distribuição de renda, pois, ao mesmo tempo em que a população miserável recebeu as bolsas sociais, a elite também viu aumentada sua extraordinária renda. Na visão de Safatle, houve “efeito elevador” para todas as classes e uma das consequências disso foi a especulação imobiliária em SP em meados do governo Lula, que fez com que imóveis de 300 mil chegassem ao valor de 900 mil em pouco tempo.

Então a questão poderia se expressar da seguinte forma: Raul contesta que Lula seja apenas uma figura abstrata, uma vez que realizou ações de redistribuição de renda; por outro lado, Safatle diz que as políticas de Lula não foram de redistribuição, mas de elevação de renda para todas as classes, sem provocar mudanças reais. Como forma de expressar essas mudanças temos as novas nomenclaturas para as classes brasileiras, foracluindo a “miséria” do vocabulário político-econômico.

As ações de Lula através das bolsas não poderiam ser pensadas como uma pequena migalha distribuída, que embora tenha causado mudanças sociais (através do consumo) para a população miserável, representou, acima de tudo, uma esperança de mudar de classe, para além de uma nova denominação que excluísse a miséria como vocábulo?

Não estamos falando da construção de um líder carismático que soube usar de uma proposta “social” para fortalecer sua figura imaginária, que ainda estava focada na esperança futura? Ou a única esperança da população miserável era ganhar no máximo R$200,00 com as bolsas?

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