NOTA CEII SP #4 [10/05/2018]

O PT produziu as condições materiais de subjetivação, no Brasil, que por fim
produziu as condições subjetivas para sua queda: de um lado (a) uma subjetividade antihumanista que Tales identifica com a direita política e (b) uma subjetividade de esquerda que foge a discussão de Ab’Saber, mas que se caracteriza como uma esquerda acomodada, individualizada, despolitizada (ou de política virtualizada como diz Žižek), tecnificada. Reflexivamente – no sentido de Ulrich Beck (citado na reunião) um efeito colateral não-planejado do projeto petista de conquista do Estado –, a vitória do PT produziu uma subjetividade de esquerda incapaz de organizar-se e reagir a queda do Partido dos Trabalhadores. Ao contrário do que Ab’Saber diz, não se trata de uma esquerda apenas desorientada. O autor trata como se apenas a direita fosse atinginda subjetivamente pela entrada do Brasil no Capitalismo contemporâneo (como ele próprio defende), como se de alguma forma a esquerda estivesse fora desse processo histórico, indiferente a essas transformações materiais, com sua subjetividade intacta (ainda que desorientada). Neste sentido, Ab’Saber bate na esquerda apenas para preservá-la, isto é, critica o petismo para proteger o petismo da crítica real. Ele age para não agir, critica para não criticar, uma falsa atividade para referir à formulação de Žižek (Como Ler Lacan, p. 36): “as pessoas não agem somente para mudar alguma coisa, elas podem agir também para impedir que alguma coisa aconteça”. Nesta formulação, a esquerda está apenas perdida e basta que o intelectual a re-oriente.

Mas não é possível estar, simultaneamente, dentro e fora do Capitalismo, dentro e fora da sociedade, relacionando-se materialmente com determinado modo de produção, sem que isto nos atinja subjetivamente, modificando nosso modo de estar no mundo. Não é apenas a direita que é transformada, mas também a esquerda. Estas são as consequências de uma esquerda que adotou uma política pós-política, isto é, na qual a “luta pela hegemonia na política pós-moderna de hoje tem um limite: ela encontra o Real quando chega no ponto de realmente perturbar o livre funcionamento do capital” (Žižek,Absoluto Frágil, 2015, p. 67). Uma demanda histérica do PT pelo Estado, que uma vezque o conquista não sabe o que fazer com ele. O petismo pode ser hoje é marcado poruma espécie de androgenia ideológica ou trans-ideologia. Um fenômeno sobre o qual precisamos refletir com mais cuidado.

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