NOTA #3 [27/05/2020] (RJ I)

A economia e os cinco estágios do luto
Um texto sempre útil em economia, ainda que felizmente raramente necessário, é o livro de Elizabeth Kübler-Ross, intitulado “On Death and Dying”. Como o título sugere, lida com as reações emocionais à morte, que a autora ordena em cinco estágios: negação e isolamento; raiva; negociação, depressão e aceitação.
O livro me veio à cabeça com a reação que, na minha visão, temos tido à pandemia da covid-19: há dificuldade de aceitá-la, negando a sua virulência, o seu poder destrutivo, para a saúde e a economia.
Volta precipitada fará a retomada ser mais como um “W” do que um “V” ou “U”, possivelmente se estendendo a 2021
Em parte isso refletiu ser esta uma crise originada na saúde e não na economia. Estamos acostumados a pensar em crises originadas em choques de petróleo (1974-75 e 1979-80), políticas monetárias radicais (1979-82), crises de excesso de endividamento (anos 1980), políticas econômicas heterodoxas (1990-92), má regulação financeira (2008-09) etc. Esta não. É uma crise na saúde, uma crise em que os instrumentos usuais de política econômica, nas áreas monetária e fiscal, têm pouca capacidade de reverter.
Os economistas têm tido grande dificuldade em traduzir a realidade epidemiológica em quedas do nível de atividade. Semana passada, o FMI trouxe a público suas novas projeções, prevendo queda de 3% no PIB mundial este ano. Apenas três meses antes, previa alta de 3,3%. Mês passado, os economistas consultados pelo Ministério da Economia para a elaboração do Prisma Fiscal, uma publicação semelhante ao Boletim Focus, do Banco Central, projetavam que o PIB brasileiro teria expansão de 1,8%. Este mês, já preveem queda de 3,3%.
Eu temo que ainda estejamos nesse estágio de negação. Porém, parece que já deixamos para trás a ideia de que a recuperação virá em um “V”, com uma rápida recuperação no segundo semestre que compense a queda no primeiro. Já se fala mais de uma retomada em “U”. O FMI, por exemplo, projeta que não voltaremos ao PIB de 2019 antes de 2022.
Em vários cantos da sociedade brasileira, assim como nos EUA, onde também o nível de coesão social é baixo, muita gente já migrou para o estágio da raiva. Raiva de ter os negócios fechados, de estar em casa, de ter sua liberdade tolhida por um governador de outro partido que não o seu. Até pelo caráter abstrato do vírus, que ninguém vê e que, em muitos casos, passa sem sintomas ou maiores repercussões.
A pressão vinda desses grupos, que no Brasil e nos EUA contam com o apoio dos seus presidentes da República, tem estimulado os governos a entrar na fase de negociação. Isso tem resultado em uma aceleração do processo de saída da quarentena. Não que não haja lógica no que países como Áustria, Dinamarca, Alemanha, Espanha e outros começaram a fazer, liberando o funcionamento de pequenas lojas, algumas obras de construção e fábricas e, em alguns locais, escolas e livrarias. Apenas que é notável que isso venha ocorrendo mais cedo do que se viu na China, mesmo em Wuhan, epicentro da pandemia, onde esta, aparentemente, atingiu níveis menos sérios do que na Europa e nos EUA.
Prevejo que o mesmo acontecerá por aqui, que os governos em breve migrarão para a fase de negociação com a pandemia da covid-19, oferecendo alguma flexibilização das regras de distanciamento social. E temo que aqui, como possivelmente na Europa, isso possa levar a um recrudescimento da pandemia. Isso por um motivo simples: uma proporção muito pequena da população mundial foi até aqui exposta à covid-19. No Brasil, minhas estimativas indicam que, no melhor caso, cerca de 0,2% da população brasileira – algo como 420 mil pessoas – foi exposta ao vírus.
Vejo gente no meio empresarial pressionando por essa rápida volta das atividades. Mas me pergunto: será que o melhor para as empresas e a economia é uma volta rápida, com boa chance de ser uma volta breve, que dê origem a um período de grande incerteza, ou é melhor esperar um pouco mais e ter um cenário mais previsível à frente?
Se essa retomada for precipitada e sem a devida preparação, algo que no Brasil é mais provável, pela falta de testagem e de coordenação entre Poderes e diferentes níveis de governo, uma nova quarentena nos aguarda à frente. Isso fará a retomada ser mais como um “W” do que um “V” ou “U”, possivelmente se estendendo ao próximo ano, e com mais queda acumulada do PIB, do emprego e das receitas tributárias.
A economia e os cinco estágios do luto
Virá então a fase da depressão. Esta parece já estar encomendada. Mesmo sem o recrudescimento da pandemia, o Brasil vai sair desta crise mais pobre, com mais desemprego, déficit e dívida pública bem mais alta, e com ainda menos coesão social. Será um tempo triste, com muita briga entre os atores políticos tentando alocar ao outro a culpa por tanta dor.
Torço, porém, para que essa seja uma fase curta e que logo possamos entrar na fase da aceitação. Aceitar que os problemas ficaram maiores para (quase) todo mundo e que, mais do que nunca, vamos precisar de força e coesão para fazer reformas, acertar o que está errado e colocar o país em uma trajetória de crescimento. Temo, porém, que isso só venha com as eleições de 2022.
Armando Castelar Pinheiro é Coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, professor da Direito-Rio/FGV e do IE/UFRJ e escreve quinzenalmente neste espaço. Twitter: @Acastelar.

NOTA #2 [27/05/2020] (RJ I)

A contradição da liderança, quando o líder se torna maior que a própria organização que o projetou, invertendo o vetor de poder, é uma questão antiquíssima na esquerda.
A meu ver, o problema foi esta questão ter se tornado secundária na teoria, seja por conta da falsa ideia de urgência da conjuntura (a conjuntura é sempre urgente, reparem), seja porque a contradição da liderança mexe com contradições intestinais das organizações – mexer nisso é quase como “mexer em tudo”.
E, pior: ao secundarizar a teoria organizacional de esquerda (sim, porque se tem algo que a direita estuda há anos é teoria organizacional), as organizações obstruíram experimentalismos mais radicais que fossem um pouco mais institucionalizados ou mesmo minimamente consequentes.
Vendendo o peixe. Conheço (e faço parte) de um coletivo em que uma de suas principais razões de existir é pensar a teoria da organização (e, ao mesmo tempo, servir como suporte material de experimentação). Tá com curiosidade? Vai lá https://www.facebook.com/IdeiaeIdeologia/

NOTA #3 [20/05/2020] (RJ I)

Tendo Gabriel Feltran como meu antropólogo de cabeceira, dá pra olhar com mais calma sobre essa possível penetração popular do discurso bolsonarista. A opinião pública periférica é regida pela tríade crime, evanjas e estado. O crime curte essas paradas de armas, mas não curte nem um pouco bolsonaro e cia. Os evanjas, ao menos a base, não vai curtir essa parada de palavrão e violência (por isso, chuto aqui o motivo da reação do Datena, mas é só chute) – vi tb aqui e acolá um desconforto em grupos evanjas. E o discurso do Estado tá pouco se lixando pra liberdade, neste conta o auxílio emergencial – que vai depender da influência do Guedes e tal. E isso explica tb o verdadeiro pavor do planalto. O problema não é a liberdade ou o cacete a 4, mas… os palavrões.

NOTA #6 [13/05/2020] (RJ I)

A porra do auxílio emergencial a 600 (e 1200 para mães solteiras) foi pautada pela esquerda, CARALEOOO!!! Os beneficiados precisam saber disso! A gente não precisa de mais de porra de vídeo de reunião nenhuma.
Ideia: ao invés de colocarmos a famigerada lista de congressistas que reprovam as nossas pautas, porque não fazemos o contrário? Vamos fazer listas dos políticos da nossa frente que são a favor da extensão do auxílio para além dos dois meses.
Vídeos curtos para disseminação no What’s App. Ação coordenada com comunicadores populares. Gastando dinheiro com ads, 3 dias diretos nisso. Pronto! Damos um passo fundamental.
Sei que é feio aprendermos com os tais marketeiros que tanto gostamos de desprezar, mas a esquerda precisa aprender também a cocoricar alto e não somente botar o ovo (esforço que nos custa muitíssimo).

NOTA #5 [06/05/2020] (RJ I)

Sempre achei que a grande armadilha ideológica do filme Elysium era o fato de vender-se como um filme futurista. Obviamente, já vivemos a divisão do Elysium há muito tempo. A pandemia escancarou isso de uma forma completamente desavergonhada.
Mas há uma segunda armadilha ideológica do filme, ainda mais perniciosa: que a transformação se daria apenas com uma espécie de aperto de um botão. De uma hora pra outra, toda a estrutura da elite se democratizaria. Isso deixa de lado todo o trabalho de organização necessário para se construir uma vitória política, e seus inúmeros combate entrincheirados nas instituições e no dia a dia.
A tal da “bala de prata” que tanto esperamos nada mais é do que a ilusão do “botão salvador” do Elysium. Desculpa, mas esse botão não existe. O que há é o duro, lento, chato e desgastante trabalho da construção coletiva.

NOTA #5 [13/05/2020] (RJ I)

Seguem trechos do Projeto 2014 e algumas breves reflexões baseadas no último encontro.
“Na encruzilhada de seus projetos filosóficos, encontramos a mais radical e corajosa tentativa de produzir uma nova afirmação da hipótese comunista, compartilhando a premissa de que o núcleo opaco do que é comum – a inutilidade, a ignorância, a inexistência e o sintoma – é também o que enlaça o pensamento e a militância.””Um Círculo de Estudos da Ideia […] precisa ser capaz de afirmar que existe uma prática que, engajada e orientada pelo que inexiste, é indistinguível de um pensamento.” Qual é a prática que é um pensamento? seria esta a prática que enlaça pensamento e militância, organização e formação [política], disciplina e estudo, poder e saber? Tal modo prático parece demandar necessariamente o comum [o círculo inútil, ignorante, inexistente e sintomático?] como sua condição de possibilidade e como seu principal produto.
“Poderíamos ainda apontar, esquematicamente, que as metas 1 e 2 dizem respeito ao pensamento, as metas 4 e 5, à militância, e as metas 3 e 6 à interpenetração dos dois. É somente quando tomadas em conjunto – isto é, quando sustentarmos o processo delineado por essas tarefas – que podemos tomar o Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia como causa dos efeitos que produz.”   Talvez seja possível dizer que o CEII torna-se causa de seus efeitos, como um coletivo produtor de pensamento de acordo com os procedimentos e operações organizacionais que garantem sua continuidade (o encontro da realidade com a interioridade perturba o sistema e provoca uma produção autônoma de pensamentos por este). Seria o ‘socialismo experimental’ um método de conformar uma organização enquanto agente coletivo que produz pensamento [orientado pela hipótese comunista]? Um agente que percebe a perturbação do mundo e adquire conhecimento no processo de reestruturação interna para lidar com ela?

NOTA #4 [06/05/2020] (RJ I)

Lá venho eu de novo com Perry Anderson e uma pergunta intrigante: “Mas como dominar as estruturas flexíveis e duráveis do Estado burguês, infinitamente elásticas ao se ajustarem a acordos sobre os quais ele imediatamente repousa, e infinitamente rígidas em preservarem a coerção da qual ele depende finalmente?” Essa citação me lembrou demais a discussão entre o voto simples (preso ao status quo) e o voto com conhecimento (em que se busca um para além do mundo em que se vive). Será tarde demais, pelo menos vindo de nossa esquerda atual, pra uma pergunta como a de Anderson no Brasil? A defesa desesperada de uma estrutura estatal extremamente degradada pelo PSOL e sua consequente falta de ambição revolucionária (ou de criatividade política) explica o afastamento do CEII?

NOTA #3 [06/05/2020] (RJ I)

“vendo a organização das grandes torcidas de futebol nas manifestações pró democracia do último domingo, unindo inclusive Palmeiras e Corinthians no mesmo propósito, tudo se estruturando em poucas horas durante a manhã de domingo, o que podemos pensar sobre as ramificações da esquerda?”

NOTA #4 [13/05/2020] (RJ I)

O que quer o CEII como subconjunto da sociedade? A assim chamada “crise do CEII” não me parece tão pertinente enquanto não conseguimos estabelecer um objetivo comum suficientemente generalizado entre os participantes. Tenho a impressão de que esse momento de repensar o círculo sobretudo é um momento de tentar estabelecer uma finalidade menos genérica para o trabalho comum. É isso?