NOTA #2 [14/10/2020] (RJ)

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Ps.: O PS vai invertido msm, logo no começo do texto, só pra avisar q eu tô reaproveitando uma nota antiga q eu mandei em cima da hora de uma reunião e acabou nem sendo vista, eu acho! hauahauah

Eu participo de um grupo de estudos marxista e nessa semana o texto que discutimos foi um fragmento dos Manuscritos Econômico-filosóficos do Marx. Trago a seguir a citação de um trecho que me chamou atenção, intitulado “Um erro duplo em Hegel”:

“O primeiro evidencia-se de maneira mais clara na Fenomenologia, como fonte originária da filosofia hegeliana. Quando ele concebe, por exemplo, a riqueza, o poder estatal, etc., como essências alienadas para o ser humano, isto só acontece na sua forma de pensamento (…). São seres de pensamento e por isso simplesmente uma alienação do pensamento filosófico puro, isto é, abstrato. Todo movimento termina assim com o saber absoluto. É justamente do pensamento abstrato que estes objetos se alienam, e é justamente ao pensamento abstrato que se opõem com sua pretensão à efetividade. O filósofo (uma figura abstrata, pois, do homem alienado) erige-se em medida do mundo alienado. Toda a história da exteriorização e toda retomada da exteriorização não é assim senão a história da produção do pensamento abstrato, isto é, Absoluto (veja-se pag XIII), /XVII/ do pensamento lógico e especulativo. A alienação, que constitui, portanto, o verdadeiro interesse dessa exteriorização e superação desta exteriorização, é a oposição entre o em si e o para si, a consciência e a autoconsciência, o sujeito e o objeto, isto é, a oposição, no interior do próprio pensamento, entre o pensamento abstrato e a efetividade sensível ou a sensibilidade efetiva. Todas as demais oposições e movimentos destas oposições são apenas aparência, o invólucro, a figura esotérica destas oposições, as únicas interessantes que constituem o sentido das restantes profanas oposições. O que vale como essência posta (gesetzte) e a superar da alienação não é que o ser humano se objetive desumanamente, em oposição a si mesmo, mas sim que se objetive diferenciando-se do pensamento abstrato e em oposição a ele.” (MARX, 1978, pg 36)

Esse trecho me chamou atenção por conta do caráter crítico que Marx atribui a dialética hegeliana do saber absoluto, mas, entretanto, me parece ser, como em todo o texto, uma crítica um tanto confusa. Marx parece combater o que entende como um excesso de abstração em Hegel, tentando resgatar um núcleo essencial da dialética (no caso aí, o conceito de alienação e a oposição entre em si e para si), caracterizando as nuances dessa contradição como apenas “aparência, o invólucro, a figura esotérica dessas oposições” e é justamente aí que me parece a maior contradição. Marx se mostra preocupado em capturar a essência do pensamento dialético, seu núcleo materialista, e é para isso que tenta chamar atenção, no entanto, quando verificamos segundo o Zizek no texto “Como Marx inventou o sintoma”, em sua efetividade teórica original, Marx procede quase como hegelianamente no que se refere à analise das mercadorias. Tanto é que chama atenção não para a “essência” da forma-mercadoria, seu caráter oculto e misterioso, e sim, para a própria forma, a maneira pela qual o produto do trabalho humano se transforma em mercadoria. Não sei se consegui tornar meu ponto claro nesta nota, mas me parece que existe uma contradição entre o que Marx diz e critica em Hegel e seu próprio desenvolvimento teórico pessoal, quase como se ele inconscientemente fosse hegeliano.
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NOTA #1 [14/10/2020] (RJ)

Na semana passada, me deparei com um texto do Lacan chamado “Analyticon”, não sei se os/as camaradas conhecem. É um dos últimos capítulos do seminário 17 (“O avesso da psicanálise”), em que o Lacan participa de um debate acalorado (pra falar de uma forma menos eufemística: foi tiro, porrada e bomba) com estudantes, bem no pós-1968. O tema central que norteia toda a discussão é a política emancipatória e o que a psicanálise pode oferecer nesse campo. Tem momentos interessantíssimos, como o Lacan sendo questionado se a psicanálise é revolucionária, ao que ele responde socraticamente: “Essa é uma boa questão”. Lá pro final, ele – já visivelmente de saco cheio – basicamente diz para os estudantes: “Vocês, revolucionários, querem um novo mestre! E o terão!”. Enfim, a despeito de concordarmos ou não com certos posicionamentos do Lacan – em dado momento, ele explicitamente se autoproclama “liberal, porque antiprogressista” -, é um texto que trabalha questões da psicanálise e da política emancipatória de forma muito instigante – e divertidíssima. Expresso aqui meu desejo de ver esse texto eventualmente discutido no CEII.

NOTA #8 [12/08/2020] (RJ)

[justify]É sabido que quando o assunto é ideologia encontramo-nos numa situação estranha em que é quase impossível distinguir o dentro do fora, o ideológico do não-ideológico. Por isso é extremamente difícil saber em que ponto enunciamos uma opinião ou “somos enunciados” por ela, em que ponto somos sujeitos ou sujeitados.
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O mesmo ocorre com a fantasia. Tem uma música maravilhosa do Lô Borges (Milton Nascimento é realmente uma espécie de Deus, mas é uma pena que com isso o resto da galera do Clube da Esquina fique na sombra…) que é bem ilustrativa, na qual, em um verso renitente, ele diz: “sonhei que eu nunca existi/ e vi que eu nunca sonhei”. Como a “realidade” é estruturada pela “fantasia” (ou pelo sonho), é difícil destinguir um do outro, dentro e fora.
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Dito isso: é possível dizer que a tal da superidentificação do querido Zizek seja uma estratégia que eleva essa característica ideológica (da indistinção dentro e fora) até as suas últimas consequências? Como se a única forma de realmente promover uma crítica da ideologia seja se identificar com o ideológico a ponto de não se saber mais ao certo o que é uma postura genuinamente ideologizada e o que é puro deboche? Se sim, existe aqui uma forma de ser irônico sem ser cínico? Ou se cínico, no bom sentido da coisa, o velho “cinismo como crítica”, na boa tradição de Diógenes, Gregório de Matos, Brecht…?
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NOTA #8 [08/07/2020] (RJ)

Eu estava assistindo a série de vídeos da boitempo sobre teoria revolucionária e, também motivado por outras notas de colegas, pensei que voltar aos clássicos e discutir a revolução (em que termos, em que sentido ainda podemos falar em revolução, revolução de quê etc).
A série inclui vídeos de Bakunin, Marx, Lenin e Luxemburgo. Até podíamos aderir à onda pop-pandêmica e marcar discussões dos vídeos em vez de textos. #FICAADICA
[url=https://www.youtube.com/results?search_query=boitempo+teoria+da+revolu%C3%A7%C3%A3o]Boitempo teoria da revolução.[/url]

NOTA #8 [15/07/2020] (RJ)

Polemizando com uma discussão do grupo, me pergunto o que faz de fato um militante. Se condicionarmos o ‘verdadeiro militante’ em função de uma base necessariamente socialista/comunista/marxista, então o Thomas Piketty, com seu novo livro para lançar “Que venha o socialismo!”, certamente seria um de nós.
Eu pouco problema tenho em contá-lo entre os meus, mas muitos gostam de apontá-lo como ‘mais um economista liberal pós-keynesiano’. Se, por outro lado, usarmos um critério do militante baseado em eficácia (quanta diferença ele fez em relação ao projeto de transformar as condições materiais em direção a uma sociedade mais igualitária), então o Piketty certamente está a minha frente, e também a frente da maioria das pessoas que conheço… De modo similar, e para continuar a polêmica, também seria mais militante Wesley Teixeira do que boa parte dos membros do PSOL ou outros partidos ditos revolucionários, independente dele se autodenominar comunista ou não. Colo aqui uma citação desses dois militantes com os quais não tenho vergonha de compartilhar um projeto comum.

“Mas é o seguinte: trinta anos depois [da queda do muro], em 2020, o hipercapitalismo foi longe demais, e estou agora convencido de que precisamos pensar em uma nova superação do capitalismo, uma nova forma de socialismo, participativo e descentralizado, federal e democrático, ecológico, mestiço e feminista.
A história decidirá se a palavra “socialismo” está definitivamente morta e deve ser substituída. De minha parte, acredito que pode ser salvo, e mesmo que continua sendo o termo mais apropriado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo. Em qualquer caso, não se pode contentar em ser “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo: é preciso também e sobretudo ser “a favor” de outra coisa, o que exige a designação precisa do sistema econômico ideal que se deseja implantar, a sociedade justa que se tem em mente, seja qual for o nome que se decida finalmente dar-lhe. Tornou-se comum dizer que o atual sistema capitalista não tem futuro, pois aprofunda as desigualdades e esgota o planeta. Isto não é falso, exceto que, na ausência de uma alternativa claramente explicada, o sistema atual ainda tem muitos dias pela frente.”

“Não acho que a questão esteja na pauta acertada e sim na nossa real ligação com a base popular do nosso País. Está aberta uma janela histórica em que devemos nos unir em diferentes escalas, para resistir e para propor, mantendo nossa diversidade e aprendendo com os erros que todos nós cometemos, sem autoindulgência. […] Acredito na articulação daqueles e daquelas que confiam que outro mundo é possível e querem fazer algo por isso. Que não veem esse momento como o fim, que não se deixam levar pelo medo e não aceitam ser eliminados, pois sabem que sobrevivemos a escravidão, ao nazismo e a ditadura. Nossos inimigos vão ficar com a vergonha da história e vamos recomeçar. Para alcançarmos isso, o que fazer? […]
Esquerda e Direita são conceitos do século XVIII, da Revolução Francesa e do nascimento do capitalismo. Porém a luta dos explorados é anterior há isso e no século XX os projetos que contestaram o capitalismo, ou seja, os comunistas, socialistas e anarquistas tiveram experiências reais em alguns países, mas o Brasil não foi um deles.
Aqui a luta do povo se deu em quilombos, como em Palmares, em revoltas, como canudos, cabanagem e balaiada.
Nossa geração chega ao século XXI com a expansão do neoliberalismo, uma fase mais cruel do sistema, que motiva o individualismo e a competição e que prega a seguinte mentira:
“O mundo sempre foi assim e não vai mudar.” Diferente das gerações anteriores, crescemos sem ter um projeto em comum de futuro. É imprescindível resgatar a utopia, independente da denominação que daremos a ele, seja ela socialismo, anarquismo, comunismo, bem-viver, quilombismo ou Reino de Deus. Se não conseguirmos olhar para o horizonte, ficaremos buscando lugares seguros no passado.”

NOTA #9 [16/09/2020] (RJ)

Queria sugerir que lêssemos algo da/sobre a Rosa Luxemburgo em algum desses encontros de leitura. Acho que a discussão dela continua viva, e a problematização sobre a espontaneidade e movimento de massas parece relevante diante da linha do tempo do CEII pós-2013. Entre disputas por vertentes diversas do marxismo, e depois por grupos feministas não-marxistas ou pela esquerda ‘espontaneísta’ democrática… a Rosa parece trazer um legado difícil de enquadrar, ideal para o ‘comunismo bizarro’ do ceii.
Envio o link de umas palestras da Isabel Loureiro sobre a Frau Doktor Luxemburg:
https://rosalux.org.br/o-pensamento-luxemburguista-e-suas-conexoes-com-a-atualidade/

NOTA #8 [23/09/2020] (RJ)

E eu esbarrei com uma breve história autonomista. Na Itália divergentes do PCI que queriam assumir a centralidade do trabalho; as discussões voam para os EUA, onde ele se associa com vertentes heterodoxas do trotskyismo e acaba vagamente associado com a New Left em geral; na França, cresce com o grupo Socialismo ou Barbárie com Castoriadis, Morin etc.
Daí chego no fato curiosíssimo de ter esbarrado com uma entrevista recente do Morin para a Marie Claire, como as ideias voam…! Seguem trechos que me interessaram [com comentários]:

“Mas tem que haver uma organização. Não estou dizendo um partido, acho que essa fórmula é antiquada. Tem que haver uma reunião com um pensamento e uma idéia.” [acho que isso temos no CEII, voltando àquela discussão do Manifesto Comunista, em que os comunistas não têm partidos, interesses ou princípios particulares; temos uma organização e uma ideia, a da hipótese comunista]

[b] [/b]”A solidariedade deve ser recolocada no centro da agenda política.” [o que tbm já discutimos aqui antes, como a solidariedade faz parte dos meios sem fins que são a própria estrutura de manutenção do círculo, ou a solidariedade como meio para realizar ideias que acaba virando o próprio fim da organização: ficar no Ceii só para encontrar amigos e manter a promessa do churrasco futuro…]

“André Malraux, que era minha bíblia, costumava dizer: “A coragem é uma questão de organização”.” [tudo volta pra organização]
[Respondendo o que o mantém motivado aos 99 anos]”É o amor! São Paulo, nas cartas aos Coríntios, diz: “Sem amor não sou nada, mesmo que tivesse a fé para mover montanhas, sem amor não sou nada”.” [e o retorno do fantasma de São Paulo no ceii; ta aí um candidato a próximo texto para ser ressuscitado em reuniões]

[url=https://www.marieclaire.fr/edgar-morin-interview-crise-ecologie-action-citoyenne-coronavirus,1356300.asp]https://www.marieclaire.fr/edgar-morin-interview-crise-ecologie-action-citoyenne-coronavirus,1356300.asp[/url]
Uma entrevista sobre o autonomismo, por Harry Cleaver e Massimo de Angelis

NOTA #8 [16/09/2020] (RJ)

Aquele tal de Unheimlich, o inquietante estranho-familiar, pode aparecer de diversas formas. Sem saber como reagir diante dele, eu prefiro recalcá-lo. Assim escolho jogar a complexidade social para debaixo do tapete. Todo excesso é amputado para que uma imagem simples apareça para mim e me ajude a manter minha sanidade. Mas o simplificado-recalcado retorna para me assombrar. Curiosamente, eu fiz essa ligação lendo o Bauman (aquele reformista traidor da causa; ops, simplifiquei de novo), quando ele diz (ou dizia, pobre defunto tão querido) que nesse regime capitalista contemporâneo criam-se soluções imaginárias que são incapazes de aliviar o sofrimento dos indivíduos na medida em que não passam de ‘soluções biográficas para contradições sistêmicas’. na Modernidade Líquida:
“os homens e mulheres são naturalmente tentados a reduzir a complexidade de sua situação a fim de tornarem as causas do sofrimento inteligíveis e, assim, tratáveis. Não que considerem as“soluções biográficas” onerosas e embaraçosas; simplesmente não há “soluções biográficas para contradições sistêmicas” eficazes, e assim a escassez de soluções possíveis à disposição precisa ser compensada por soluções imaginárias.”
Esse recalque simplificante da possibilidade de uma sociedade outra. Mas é uma questão de complexidade e organização. Será que se ‘organizar direitinho’, todo mundo resolve a questão do sofrimento psíquico coletivamente? Vale a pena tentar, e acho que o CEII é um espaço possível para esses experimentos organizacionais.