NOTA #8 [24/06/2020] (RJ I)

Eu me sinto muito inseguro em relação à Filosofia de modo geral. Sempre acho que não sou capaz de alcançar certos níveis de abstração e conseguir entender e mobilizar os conceitos de maneira minimamente articulada.

Ao mesmo tempo, pelo pouquinho que sei do campo, acho bastante prejudicial o afastamento (e às vezes até mesmo a existência de uma certa “repulsa”) das Ciências Sociais em relação à Filosofia. Digo, de alguns setores/professores/pesquisadores, claro.

NOTA #9 [17/06/2020] (RJ I)

Amigos, estou estudando para um concurso público que já faz tempo que eu queria fazer. Por tanto nos próximo mês vou ficar indisponível para as reuniões para concentrar minhas energias nesta prova ( o que de fato já vem acontecendo). Eu lembro que extinguimos o licencei. O que devemos fazer em uma situação dessas?

Um abraço a todos.

NOTA #11 [27/05/2020] (RJ I)

De acordo com a última reunião, a partir da base teórica do CEII em Badiou, Ranciere e Zizek, estamos numa organização preocupada com um novo tipo de Comunismo, especificamente um Comunismo Sem Organização, Sem Estado, Sem Militante. O que implica esse compromisso? Fazer uma política caracterizada negativamente pelo que ela não tem. Não tem uma organização hierárquica que supõe a maior capacidade ou inteligência de uns membros em relação a outros. Não tem um Estado de coisas configurado e estabilizado que sufoca a capacidade de subverter o status quo, de produzir o novo, novas ideias que reconfigurem o campo do pensamento e ação. Não tem Militante, não tem uma preocupação essencial com identidades ideológicas, mas com um modo de fazer política.
São muitas coisas para não ser de modo a ser ceiiano (ou um comunista do ‘séc xxi’). Mas isso lembra a definição do Marx de política comunista como aquela sem interesses, princípios ou partidos particulares. Será que quanto menos ‘marcadores’, mais próximos estaremos de um comunismo como política completamente genérica (no sentido do remédio genérico que serve ao povo como o mais acessível)?

NOTA #13 [10/06/2020] (RJ I)

Uma cena de The Handmaid’s Tale faz alusão à passagem bíblica em que Raquel e Jacó lidam com a frustração de ainda não terem gerado filhos.

A passagem lembrou Simone que uma vizinha de infância de sua família era motivo de piada na sua casa por cantar uma música da cantora gospel Fernanda Brum, cujos versos (originalmente bíblicos) eram “dá-me filhos, se não morro”. A graça era que a vizinha já tinha onze filhos. Hoje, tudo é mais engraçado se consideramos que o deboche vinha de uma casa com sete crianças.

A lembrança da Simone nos levou a um DVD ao vivo que a cantora gravou há mais de dez anos atrás. O show começa com uma espécie de discurso sobre a “geração de João Batista”, que “clama que o povo se arrependa”, “geração que não tem sua vida por preciosa”. Evidente que compartilho (cada vez mais) do horror espontâneo que qualquer pessoa com juízo no Brasil deveria sentir a respeito da influência evangélica na política, mas, apesar de soar sinistro, o tal discurso me causa uma admiração.

Já dividi outras vezes com o grupo a sensação de que o único discurso disruptivo (realmente existente) que restou está com os crentes. Disruptivo no sentido de ser discurso que sustenta uma desconfiança sobre a noção de indivíduo, quando todos os demais, e em qualquer esfera da vida social, o tratam como o mais precioso dos recursos.

O efeito político disruptivo desse discurso consiste em trabalhar ideologicamente uma área em que a ideia de transformação social perdeu lugar (e, de fato, não há mais lugar). E, quando tudo parece indicar uma espécie de saturação da experiência subjetiva atual (do tédio à depressão acho que se trata disso), é este discurso crente que entrevê que o indivíduo já não é mais suficiente para uma boa vida.

Talvez, a adesão popular ao “crentismo” decorra do sentimento de que essa cultura dominante lhes faz mal pessoalmente, apesar de prometer o bem.

NOTA #16 [03/06/2020] (RJ I)

No grupo de whats app do grupo, vi uma conversa sobre a realidade. Parecendo discordar de alguém que não identifiquei, nosso camarada Joelton disse algo sobre a realidade não existir “sozinha”. Sem acompanhar a discussão, me ocorreu que a realidade não (in)existe sozinha.

A realidade é uma categoria problemática, especialmente em tempos de pandemia. Em algum momento sobrava a expectativa de que o volume dos mortos pudesse ser mais efetivo no Brasil do que informações sobre os riscos da COVID. Pessoalmente, lembro de imaginar algo como “quando bater cem mil mortos, tudo mudará”. Lembro de conversar com amigos que argumentavam que apenas quando cada pessoa conhecesse uma vítima fatal do vírus é que teríamos um “despertar” sobre a pandemia etc.

Com o cansaço sobre o assunto, não sei mais o que pensar. Mas sempre me vem à cabeça a ideia de que a realidade é uma categoria estranha. Afinal, por lógica, a realidade não pode ser o juízo de um corpo morto em cada pessoa viva.

NOTA #5 [08/07/2020] (RJ I)

Um dos primeiros resultados quando jogo “ideia e ideologia” no Google é o site do nosso querido camarada, o chanceler Ernesto Araújo. E umas partes davam uma boa nota para o CEII, hem; minha passagem favorita é essa:

“(…) Ideias são a essência viva da mente humana. Ideias são o resultado dinâmico do processamento da realidade pelo intelecto e pelo sentimento. A realidade não existe sozinha, nem os conceitos ou ideias existem sozinhos, ou não deveriam existir. A ideologia instaura uma cisão entre a realidade e os conceitos, arranca as ideias de seu enraizamento orgânico na realidade, e assim petrifica o pensamento para controlar as pessoas.

Ao repudiar a ideologia, é preciso ter cuidado para não deixarmos de ter ideias. O repúdio à ideologia deve significar a libertação das ideias, e não sua exterminação. Do contrário, faríamos exatamente o que a ideologia quer. Na ideologia as ideias estão lá, acorrentadas, magrinhas, esfomeadas, trabalhando como escravas para o sistema de dominação. Precisamos romper as correntes que assujeitam as ideias, trazê-las para fora e banhá-las novamente na realidade. (…)”

https://www.metapoliticabrasil.com/post/ideologia-n%C3%A3o-ideias-sim

NOTA #7 [24/06/2020] (RJ I)

No melhor estilo Dark, essa nota é a continuação de uma nota relativa a uma reunião posterior (a saber, a nota 1 de 15.07.2020: https://notas.ideiaeideologia.com/nota-1-15-07-2020-rj-i/). No que se refere à sequência das reuniões, a continuação vem temporalmente antes do início da conversa, portanto.

Tendo a concordar que toda e qualquer pessoa é atravessada por uma (ou mais) ideologia(s). Também não é o caso de que se possa alcançar um ponto absolutamente livre de ideologia. Além disso, também acho que a consciência da ideologia é um passo importante da crítica à ideologia. Mas esse tomar consciência talvez não seja suficiente; não o é, em todo caso, do ponto de vista de uma abordagem da psicanálise, por ex. Isso porque mesmo consciente das determinações ideológicas ainda assim a gente está submetido às determinações dela. É o caso também em Marx, quando ele fala do fetichismo da mercadoria: a coisa opera ideologicamente na prática através da gente mesmo que a gente esteja consciente dessas determinações ideológicas. Aquela história do “Eles sabem o que fazem, mas mesmo assim…”. Nesse sentido, a ideia de “ter consciência de” teria, no mínimo, esse limite de, ao que parece, não ter nenhum efeito sobre a determinação ideológica. Não que devesse ter, e tal, mas vc acha que tem? Em outros termos, há alguma vantagem e, se há, qual é a vantagem de tomar consciência da ideologia? Parar por aí não recairia justamente no que Marx critica na Ideologia Alemã e algures, a saber, que se trata de uma superação meramente teórica, nem que seja via uma dimensão que escapa minimamente da ideologia na medida em que tem consciência dela, e não uma possível superação prática do que produz esses pressupostos, possibilitando a assunção de outros?

Pois esse conceito de ideologia como pressupostos inconscientes e inescapáveis me lembra muito a ideia de pressupostos presentes na tradição da hermenêutica em geral (de modo mais evidente em Heidegger e Gadamer) e na fenomenologia desde Heidegger, pelo menos. Nesse caso, ter consciência dos pressupostos traz a contribuição não de romper o círculo no qual sempre já estamos — pois não há relação com a “realidade” que não venha carregada de pressupostos –, mas de entrar nele de maneira mais produtiva, pois, ganhando consciência dos pressupostos, é possível levá-los a seus próprios limites e, quiçá, assumir e/ou incorporar outros. A rigor, quando se chega ao limite de certos pressupostos é que já se “caiu” em outros, que por sua vez só se revelarão em seus limites à luz de outros pressupostos.

Nesse sentido, vc não sai do ciclo de pressuposição (da ideologia), mas pode “entrar” nele de maneira mais ou menos produtiva. Donde, se cava um campo para a crítica da ideologia que não é, em princípio, redutível à ideologia, pois diz respeito a uma forma de lidar com determinações ideológicas que permite uma certa distância em relação a eles (nem que seja a mínima “consciência de”).

Mas de novo se pode colocar aí a questão de se essa dimensão não é ela mesma ideológica e que critérios há para dizer que há uma distância mínima. Ora, justamente não dá para saber se escapamos “definitivamente” da ideologia, porque precisaríamos de um ponto de vista “divino” da “verdade”, não ideológico. Mas isso significa que devemos abrir mão do ponto de vista da totalidade e, mesmo, da verdade? Ora, isso é que não me parece se seguir. É o que tentei dizer falando antes de uma totalidade “aberta” (uma totalização histórica, no sentido do Sartre da Crítica da Razão Dialética, talvez), constituída “negativamente” pela crítica da ideologia, cuja pedra de toque é justamente a abrangência e, nisso, o poder explicativo. A isso eu acrescentaria a ideia de uma verdade (de uma eternidade…) construída.

Uma alternativa a esse modelo é essa explicação que costumamos associar à pós modernidade: todas as posições são igualmente válidas, não há critérios para decidir entre elas — e aí chegamos no ceticismo do qual o Rafael falou, me parece. Isso que estaria relacionado à “igualdade no sentido prático” à qual me referi. A paralaxe no Karatani e o perspectivismo seriam saídas para esse ceticismo (que ele nem chegou a apresentar, mas acho que vai nessa direção).

O que esse modelo cético/pós-moderno não parece ver é que ele mesmo é uma totalização — uma que faz com que todos os gatos sejam pardos, menos, talvez, o discurso que aponta isso. Daí me parece se seguir que uma dimensão da estruturação ideológica da qual não podemos escapar é justamente seu caráter totalizante. Donde, a disputa ideológica talvez possa apelar para essa totalização como critério para dizer que algumas ideologias são “piores” que outras.

Não acho que esse critério necessariamente se opõe ao de pensar em termos de perspectivismo e paralaxe, por ex. Porque em ambos os casos se produz um ponto de vista… totalizante que permite circular entre diferentes sistemas ideológicos _e_ fazer a crítica de sistemas que não são capazes de fazê-lo. Mas de novo: toda a ideologia não faria isso? Não, o fascismo, por mais abrangente que seja, por exemplo, opera por exclusão de sistemas e, por isso, falharia justamente do ponto de vista da totalização. Não pode ser tomado como um igual então. O problema do ceticismo e da pós-modernidade seria justamente o de que fazem tábula rasa dessa distinção. Sim, nesse sentido algumas ideologias seriam problemáticas do ponto de vista dessa totalização menos abrangente e tal.

Enfim, pode soar tudo muito assertivo na maneira em que formulo, mas são coisas que estão em aberto, e tal.