NOTA #2 (13/07/2016) PR

A ideia da feira é muito boa e cabe a nós promover a realização concreta, trará muito conhecimento para a célula, além da aproximação com a população. Apesar da leitura ter sido curta, foi proveitosa, animando inclusive os expectadores. Longa a vida a celula CEII JACAREZINHO PARANA!

NOTA #2 (20/07/16) PR

Reunião produtiva concordo com os pontos até o 4.2 em relação ao projeto. Achei válida a discussão a respeito da virtualização da existência, o sujeito intensifica a “encavernação” e substitui as suas experiências reais pelas virtuais no processo de conhecimento. Isso pode ser através de experiências fantasiosas ou não, mas em ambos facilita a alienação de forma extrema por ocorrer uma orientação em suas experiências. Por outro lado essa aceleração dos meios virtuais pode ser “positiva”, pela supressão do obstáculo físico, logístico, além do acesso instantâneo. Acredito que a partir do momento que ocorre uma emancipação do indivíduo em tal meio, ele se torna o protagonista de sua orientação, mas isso será plenamente possível através de uma tecnologia livre, desde resultados em buscas não orientados e softwares de acesso-construção públicos e principalmente personalização ilimitada.

NOTA #1 (20/07/16) PR

Achei a discussão acerca do Pokemon Go muito produtiva e interessante. Poderíamos retomá-la levando em consideração dois artigos sobre um assunto, um publicado pelo Sreckò Horvat no The Guardian e outro pelo Sam Kriss na Boitempo. Acho que ambos os artigos tratam muito bem sobre parte do que o camarada 097 disse na reunião acerca da criação de um espaço geográfico totalmente nova que abre um grande leque de possibilidades para uma nova de forma de circulação de mercadorias – e consequentemente, para novos modos de apartheid social.
Outro ponto que poderíamos discutir um pouco mais é sobre a realidade aumentada. A AR (“Augmented Reality”) permite um novo mundo possível: o maior e mais antigo sonho da esquerda. Porém, como pudemos ver com Pokemon Go, esse novo mundo criado não é exatamente um novo mundo, mas uma sobreposição do virtual sobre o real, onde ambos se confundem – de modo que não há uma diferença efetiva, como é possível perceber em qualquer vídeo no Youtube que mostra pessoas jogando o game como se virtualidade e realidade fossem indiferentes. E nessa sobreposição, a lógica da sociabilidade pautada na produção e na reprodução da mercadoria – o virtual não escapa ao fetichismo – continua se mantendo.
Ainda sim, será que é possível tirar uma lição sobre isso? Será que poderíamos criar algo similar, mas que instaurasse, efetivamente, um novo mundo? Uma nova sociabilidade? Uma nova organização do ser social que sobreponha-se sobre o real, transformando-o, criando fissuras em sua estruturação?

NOTA #1 (13/07/16) PR

Em nota anterior já havia comentado sobre o quanto acho interessante a proposta do Rancière de fazer pensarmos a organização do Círculo enquanto coletivo de pessoas que partem de uma mesma posição de igualdade a partir da assunção da condição de que todos nós sabemos ao menos uma infinidade de coisas – e também não sabemos muitas delas.
Porém, será que esse método realmente é praticável? Anunciar que nos organizamos por meio de um princípio que pré-determina que todos nós partimos de uma condição inicial de igualdade é capaz de dissolver as nossas impressões subjetivas sobre o outro e sobre o Círculo? Essa falta individual – a sensação de impotência ou de ser negativamente desigual – pode ser suplantada por uma complementação coletiva?

REFERÊNCIAS 19/07/2016 (RJ I)

 

Resumo das primeiras páginas de “Materialismo Revisitado”:

1. Senso comum: “ciência superou a matéria”

  • Zizek se refere aqui ao fato de que a posição de cientistas como Ernst Mach pareciam (e as vezes eram) muito contraditórias com a ideia clássica de que o materialismo é uma posição que reduz os processos e fenômenos às leis e determinações ligadas ao campo material (substancial, objetivo, absoluto, etc). Mach, filósofo e cientista que influenciou alguns marxistas não-ortodoxos dentro do partido Bolchevique, argumentava – de maneira desengonçada, mas na linha de Einstein, mais tarde, que iria inclusive admitir sua influência – que os sistemas de coordenadas que usamos para localizar um fenômeno no tempo e no espaço são variáveis, de modo que o tempo e o espaço não seriam categorias absolutas, mas relativas – e ligadas, portanto, à cultura e ao observador. A ciência estaria ficando “sem matéria” justamente porque ao invés de servir de modelo para as ciências sociais romperem com o “reino das opiniões” e do relativismo, parecia, ao contrário, estar tratando o estudo da realidade concreta com os critérios relativistas que a ideologia aplica ao campo social. Daí a base para o debate quando alguns marxistas começaram a falar que era necessário rever a “ciência marxista” a partir dessa nova compreensão da ciência física.

2. Tese básica de Lenin: (a) recusa de reduzir o conhecimento a uma convenção instrumental (o conhecimento não é só uma abstração sem realidade alguma, as mediações são importantes, sem elas não podemos conhecer a realidade), (b) insistência na natureza precária do nosso conhecimento (mediações teóricas são necessárias, mas a prática ainda é o critério da verdade).

3. Essa posição Lenin mantém tanto no livro Materialismo e Empiriocriticismo quanto depois, nos cadernos de estudo de Hegel – mas não é uma posição hegeliana.

4. Contra Lenin (e Adorno): o erro do hegelianismo de Lenin e Adorno é achar que para dar prevalência ao que não é consciente ou abstrato tem que dar prevalência ao que é externo e imediato, ainda que de maneira indireta. O materialismo propriamente dialético não é aquele que diz que a matéria é o imediato, mas aquele que encontra a dimensão material da própria mediação.

5. Idealismo implícito de Lenin: de que ponto de vista seria possível afirmar que o externo permanece realmente “além” de nós? Fica oculta, na teoria da reflexão, a premissa de que a consciência está fora do mundo.

6. Razão da distorção subjetiva não é a parcialidade externa de cada agente ao mundo, mas o efeito da inclusão do sujeito no seu objeto, na realidade externa – o sujeito é externo a si mesmo.

7. A diferença entre materialismo e idealismo não se decide, assim, entre o ponto de vista da realidade externa, de um lado, e o ponto de vista subjetivo do outro, mas na questão de se acreditamos que existe uma totalidade harmônica que liga o Eu e o mundo, seja esse mundo acessível a nós ou não. Lacan chama essa totalidade de Grande Outro (Outro: aquilo que não sou eu – “Grande” porque seria uma alteridade totalmente externa a mim, sem que eu mesmo tenha sido “contaminado” por ela – o “lado de fora” enquanto que o Eu seria “o lado de dentro”).

  • Zizek associa o materialismo, assim, menos à tradição socrática, que reconhece uma interioridade como algo de verdadeiro, mas a tradição cristã, que abole o lugar de um Deus lá no Céu, que veria tudo de uma só vez (capaz de ver o “de fora” perfeitamente) – o “pai porque me abandonastes?” seria assim uma maneira de assumirmos que estamos dentro do mundo e não existe ponto de vista externo capaz de separar o dentro e o fora assim com tanta perfeição. O dentro está dentro do fora.

8. “Não há um universo como um Todo”, “tudo o que existe existe dentro do Nada”.

  • Apesar do hermetismo da formulação, o argumento aqui é mais ou menos simples: quando a gente reconhece que esse “lá fora” totalmente externo é uma fantasia, uma fantasia que oculta o fato que nós mesmo estamos fora de nós, que o sujeito faz parte da realidade que ele apreende, que a mediação é ela mesma material e portanto produz efeitos materiais, temos que abdicar desse suposto ponto de vista total de onde a gente veria “tudo”: seja esse tudo a realidade realmente real OU MESMO A IDEIA DE QUE TODAS AS PERSPECTIVAS SÃO IGUAIS – esse é o ponto mais difícil: o que Zizek argumenta é que tanto o materialismo ingênuo quanto o pós-modernismo partem igualmente da fantasia de que existe um “lá fora” – para retrucar com a frase “mas é só a sua opinião parcial”, o pós-moderno tem que ter fé de que existe algo mais real do que a parcialidade que ele está chamando de parcial. De que ponto de vista ele tem acesso a essa certeza? Para Zizek, nem materialismo ingênuo (o mundo está objetivamente lá fora) nem pós-modernismo (cada um fala do mundo de sua perspectiva subjetiva) tocam no cerne do materialismo dialético, que é o estudo da maneira como a própria diferença entre sujeito e objeto está imersa no objeto – há uma face “objetal” do próprio sujeito.

9. Hegel e Budismo: dialeticamente, então, quando tentamos apreender tudo o que existe, acabamos não apreendendo nada. Um exemplo: quando tento capturar a imediatez das coisas, sem mediações abstratas, falo “aqui”, “agora”, etc – mas essas são justamente as palavras mais abstratas, não capturam nada da singularidade que visam. Ao visar o Todo, acabamos no Nada, que é o seu verdadeiro conteúdo.

10. Hegel e Heidegger: uma outra maneira de entender essa relação entre sujeito e o mundo é entender que o mundo só aparece como um “lá fora” depois que ocultamos o ponto em que nós mesmos estamos dentro do mundo. Esse auto-ocultamento do caráter “objetal” do sujeito é que faz com que o mundo seja uma coisa, e o sujeito outra. É por isso que Hegel afirma que primeiro vem o infinito ( o sem limite) e o limite que define o finito (onde uma coisa é perfeitamente distinta de outra) é uma negação do infinito, uma operação que esquece algo para poder constituir um mundo bem definido.

11. Hegel e Lacan: Zizek mostra, em seguida, que esse excesso que tem que ser deixado de lado é algo que Lacan também pensou, mostrando que o esquecimento não acontece porque apagamos o que não cabe no mundo, mas porque criamos algo extra para apagar seu caráter estranho. Para Lacan, as aparências são o mais estranho e nós criamos a fantasia de que tem algo “atrás” das aparências para normalizar esse excesso.

12. Hegel e Marx: esse mesmo insight está em jogo na análise da forma da mercadoria em Marx, que repetidamente indica que o “segredo da mercadoria” não é sua essência (o trabalho), pelo contrário, isso é o que a mercadoria “finge” que esconde. O que é realmente escondido nessa operação é o próprio caráter superficial, a forma em si, que é o determinante.

13. Hegel e Freud: da mesma maneira, a fantasia, na psicanálise, é um conceito que descreve a maneira como adicionamos uma suposição extra às aparências – uma fantasia sobre a essência – que nos permite normalizar o excesso, fazer sumir essa dimensão que não cabe na realidade. Esse excesso chamamos de “real”, o mundo normalizado, de “realidade.

 

Nota CEII SP #5 [14/07/2016]

Penso que as conversas sobre as notas de trabalho foram importantes não só para resolver os problemas dos débitos,
com também para lembrarmos novamente da importância das notas para o funcionamento ou projeto do CEII. Realmente acho
que se trata de um dos pontos diferenciais em nosso projeto, e fico curiosos para saber como seria se essa ideia fosse
aplicada em outros coletivos.

Mas às vezes fico intrigado com a dificuldade que aparentemente alguns participantes tem em fazer a nota. Muito se fala na
questão do tempo, mas acho que muitas vezes isso funciona como uma saída fácil para a questão, nos impedindo de refletir melho sobre
as dificuldades ou afetos subjetivos provocados pelo dever/direito da nota de trabalho.