NOTA #9 [19/07/2016] (RJ I)

Nota 2 CIP-DF

 

Daniel Bell, em seu livro “As contradições culturais do capitalismo” (1992) também salienta que a ética protestante e o temperamento puritano foram os códigos que exaltavam o trabalho, a sobriedade, a frugalidade, o freio sexual e uma atitude proibitiva da vida. E, que essa ética protestante e o temperamento puritano foi a visão de mundo de um modo de vida agrário, de pequena cidade, mercantil e artesanal. Ressalta que a vida e o caráter da sociedade norte-americana foram moldados pela pequena cidade e suas religiões, que foram necessárias para impor enérgicos códigos de sanções comunitárias em um meio hostil, davam sentido e justificação ao trabalho e as restrições, em uma economia de subsistências. Deste modo, destaca a influência do pensamento teocrático puritano na história da mente norte-americana, onde os principais intelectuais americanos eram clérigos até meados do século XVIII. Assim, a comunidade era governada por uma moralidade racional em que a lei moral era uma fria e virtuosa necessidade, e uma vez despojado da casca teológica, o núcleo do puritanismo era um intenso zelo moral pela regulação da conduta humana, não porque os puritanos foram rudes ou lascivos, mas porque haviam fundado uma comunidade como um pacto em que todos os indivíduos compartilhavam responsabilidades. Isso porque dados os perigos externos e as tensões psicológicas de viver em um mundo fechado, o indivíduo não deveria se preocupar somente por sua conduta, mas também pela da comunidade, pois os pecados de uma pessoa não só a punham em perigo, mas também o grupo todo, e, ademais, ao não se observar as exigências do pacto, se podia atrair a cólera de Deus sobre a comunidade. Deste modo, os puritanos americanos haviam firmado um pacto que comprometia a cada homem levar uma vida exemplar cujos termos fazia todos conscientes dos pecados da tentação e das tentações da carne. Nesse rumo, o puritanismo norte-americano se converteu numa ideologia, num meio para mobilizar a comunidade, reforçar a disciplina e um conjunto de controles sociais, que funciona como fonte de conservadorismo ao perdurar e, até se fazer mais forte muito depois de desaparecer sua congruência com o movimento social. Isso porque leva consigo a autoridade e as sanções do passado, é instilada na mente das crianças e se converte num esquema conceitual de mundo e das normas morais da conduta, mesmo sendo seu conteúdo sutilmente redefinido ao longo do tempo para justificar os códigos sociais estabelecidos e os controles sociais que sustentam o poder social da classe dominante (conceito funcional de ideologia). Para Bell, este foi o destino do puritanismo, pois muito depois de mitigar-se a dureza do ambiente que promoveu a ideologia original, subsiste a força de sua crença. Deste modo, a regra da abstinência havia formado parte da moral pública da sociedade norte-americana e foi um recurso para assimilar o imigrante, o pobre e o desviado ao status da classe média, já que não à sua situação econômica. Contudo, no final do séc. XIX essa regra já não era voluntária, mas uma arma coercitiva de um grupo social cujo próprio estilo de vida já não tinha autoridade moral. E, uma vez que os novos grupos urbanos não aceitavam de bom grado a temperança como forma de vida, então, tinha que ser imposta pela lei e convertida em assunto de deferência cerimonial para os valores da classe média tradicional. Assim, a moralidade se converteu em moralização e a proibição converteu-se em uma saída para as perturbações de toda libido freiada. Durante o movimento de proibição, a lascívia e o temor foram explorados por aqueles que se detinham no vínculo do sexo com o álcool, o temor da loucura e da degeneração racial e da autoafirmação do negro. Se não podiam converter o pecador, se poderia suprimir o pecado e o pecador também. A proibição foi mais do que uma questão de álcool, foi um problema de caráter e um momento de alteração no modo de vida.

NOTA #4 [12/08/2016] (RJ II)

Tenho entendido que “forma-de-vida” é o modo como o Agamben nomeia aquilo que excede a vida baseada na forma política atual. Quer dizer, “forma-de-vida” é aquilo não está contido no conjunto dos direitos civis, políticos, sociais, nos direitos humanos etc. Por isso a ideia de forma-de-vida serviria para ilustrar seu argumento por uma política não-estatal, já que, por óbvio, o avatar estatal de cada um de nós, isso é, o cidadão, que tem é todo direito, é o que permite que possamos existir socialmente. É como se sem a abstração estatal sobre o indivíduo, o indivíduo, enquanto tal, fosse impossível.

Eu sei que o direito à propriedade privada parece anular todos os outros direitos. Mas é curioso, e também quase inteligível para mim sem elaborações como essas que o Agamben oferece, a maneira como o Marx, em 1844, fala sobre o lugar da propriedade privada no contexto da miséria social a que estão submetidas as pessoas nessa sociedade. Ele diz que a oposição “sem propriedade” e “propriedade” é insuficiente para descrever, de baixo para cima, como esse quadro está montado sobre cada um. Eu tenho a sensação de que toda política consciente dessa miséria social tem procurado lidar com o fato de que o direito à propriedade privada, como marca da igualdade entre as pessoas, não basta para que todos possam usufruir do que é socialmente produzido, de modo que arranjos e mais arranjos políticos/jurídicos são forjados para lidar com esse fato – para fora do espectro marxista e sua imaginação política, em que “abolir a propriedade privada” é uma ideia comum, quase sem pensamento, acredito que toda política atenta aos seus efeitos sociais termina, ainda que sem o saber, tencionando com esse direito em particular.

Falo disso para poder especular sobre como poderia ser pensado a questão da propriedade privada sob esse argumento de Agamben. Eu acho que, aqui, haveria uma afinidade entre ele e o Marx, no sentido de que o dito por uma política não-estatal [que não me parece ser “contra o Estado”, mas indiferente a ele] e uma vida social em que “propriedade” não serve para determinar o campo da “desativação do poder”, me parecem associáveis.