NOTA #1 (01/02/16) PR

1. Qualquer

O ser que vem é o ser qualquer. Na enumeração escolástica dos transcendentais (quodlibet ens est unum, verum, bonum seu perfectum, qualquer ente que se queira é uno, verdade, bom ou perfeito), o termo que, permanecendo impensado em cada um, condiciona o significado de todos os outros é o adjetivo quodlibet. A tradução corrente no sentido de “não importa qual, indiferentemente” é certamente correta, mas, quanto à forma, diz exatamente o contrário do latino: quodlibet ens não é “o ser, não importa qual”, mas “o ser tal que, de todo modo, importa”; isto é, que já contém sempre uma referência ao desejar (libet), o ser qual-se-queira está em relação original com o desejo.
O Qualquer que está aqui em questão não toma, de fato, a singularidade na sua indiferença em relação a uma propriedade comum (a um conceito, por exemplo: o ser vemelho, francês, muçulmano), mas apenas no seu ser tal qual é. Com isso, a singularidade se desvincula do falso dilema que obriga o conhecimento a escolher entre a inefabilidade do indivíduo e a inteligibilidade do universal. Já que o inteligível, segundo a bela expressão de Gersônides, nao é um universal nem o indivíduo enquanto compreendido em uma série, mas “a singularidade enquanto singularidade qualquer”. Nesta, o ser-qual é recuperado do seu ter esta ou aquela propriedade, que identifica o seu pertencimento a este ou aquele conjunto, a esta ou aquela classe (os vermelhos, os franceses, os muçulmanos) – e recuperado não para uma outra classe ou para a simples ausência genérica de todo pertencimento, mas para o seu ser-tal, para o próprio pertencimento. Assim, o ser-tal, que permanece constantemente escondido na condição de pertencimento (“há um x tal que pertence a y”) e que não é de modo algum um predicado real, vem, ele mesmo, à luz: a singularidade exposta como tal é qual-se-queira, isto é, amável.
Pois o amor não se dirige jamais a esta ou aquela propriedade do amado (o ser-loiro, pequeno, terno, coxo), mas tampouco prescinde dela em nome da insípida generalidade (o amor universal): ele quer a coisa com todos os seus predicados, o seu ser tal qual é. Ele deseja o qual somente enquanto é tal – este é o seu particular fetichismo. Assim, a singularidade qualquer (o Amável) não é jamais inteligência de alguma coisa, desta ou daquela qualidade ou essência, mas somente inteligência de uma inteligibilidade. O movimento que Platão descreve como a anamnese erótica é aquele que transporta o objeto não para uma coisa ou um outro lugar, mas para seu próprio ter-lugar – para a Ideia.
(AGAMBEN, G. A comunidade que vem. pp. 9-11.)

NOTA #4 (25/01/17) PR

Foi a primeira reunião após o recesso de final de ano. Muito se discutiu sobre a questão do tempo e como essa forma constitutiva pode se entrelaçar e determinar o agir do sujeito. Claro, “aqui no CEII, estamos disputando o tempo das pessoas.”. Para além dessa discussão que faz ressuscitar a filosofia teórica de Kant, com um viés para uma possível filosofia da antropologia (Foucault), devemos lembrar do aspecto produtivo. Infelizmente, o tempo está ligado à produção e ao consumo. Nós não disputamos apenas com a falta de engajamento, ou com a predominância de outros interesses (seja lá qual forem); mas, principalmente, nós nos debatemos com a inutilidade que paira na filosofia e nas discussões políticas. Qual é o motivo do saber filosófico ser marginalizado?(Apenas a minoria tem devir, Deleuze). O que o CEII produz? Todos tem uma espécie de hospital psiquiátrico e vamos trocando de édipo no decorrer da vida: para o louco a clínica, para o pecador a igreja, para o pensador a acadêmia, e para os comunistas?

NOTA #3 (25/01/17) PR

Há uma frase bastante famosa que foi colocada por Mao Tse-Tung certa vez: “Há uma grande desordem sob o céu, a situação é excelente”. Vivemos tempos em que essa frase tem todo o seu sentido e mérito de ser. É principalmente quando o estado da situação tem seus elementos completamente desorganizados que é possível re-organizá-los. A ruína é o prenúncio de um novo tempo, como diria Hegel.
Isto é, o caos não é necessariamente ruim. Na verdade, ele é necessário; é com a negação do que há que ao devir abre-se caminho. Um humanismo efetivo só é possível em tempos como esse: pensemos, avancemos, antes que a barbárie avance sobre nós.

NOTA #2 (25/01/17) PR

“Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% do papel fotográfico utilizado no mundo. Em apenas 3 anos, o seu modelo de negócio foi extinto e a empresa desapareceu.
O mesmo acontecerá com muitos negócios e indústrias nos próximos 10 anos e a maioria das pessoas nem vai se aperceber disso. As mudanças serão causadas pelo surgimento de novas tecnologias.
Conforme exposto na Singularity University Germany Summit, em abril deste ano, o futuro nos reserva surpresas além da imaginação.
A taxa de inovação é cada vez mais acelerada e as futuras transformações serão muito mais rápidas que as ocorridas no passado. Novos softwares vão impactar a maioria dos negócios e nenhuma área de atividade estará a salvo das mudanças que virão.
Algumas delas já estão acontecendo e sinalizam o que teremos pela frente. O UBER é apenas uma ferramenta de software e não possui um carro sequer, no entanto, constitui hoje a maior empresa de táxis do mundo. A Airbnb é o maior grupo hoteleiro do planeta, sem deter a propriedade de uma única unidade de hospedagem.
Nos EUA, jovens advogados não conseguem emprego. A plataforma tecnológica IBM Watson oferece aconselhamento jurídico básico em poucos segundos, com precisão maior que a obtida por profissionais da área.
Haverá 90% menos advogados no futuro e apenas os especialistas sobreviverão. Watson também orienta diagnósticos de câncer, com eficiência maior que a de enfermeiros humanos.
Em 10 anos, a impressora 3D de menor custo reduziu o preço de US$18.000 para US$400 e tornou-se 100 vezes mais rápida. Todas as grandes empresas de calçados já começaram a imprimir sapatos em 3D.
Até 2027, 10% de tudo o que for produzido será impresso em 3D. Nos próximos 20 anos, 70% dos empregos atuais vão desaparecer.
Em 2018, os primeiros carros autônomos estarão no mercado. Por volta de 2020, a indústria automobilística começará a ser desmobilizada porque as pessoas não necessitarão mais de carros próprios. Um aplicativo fará um veículo sem motorista busca-lo onde você estiver para leva-lo ao seu destino. Você não precisará estacionar, pagará apenas pela distância percorrida e poderá fazer outras tarefas durante o deslocamento.
As cidades serão muito diferentes, com 90% menos carros, e os estacionamentos serão transformados em parques. O mercado imobiliário também será afetado, pois, se as pessoas puderem trabalhar enquanto se deslocam, será possível viver em bairros mais distantes, melhores e mais baratos.
O número de acidentes será reduzido de 1/100 mil km para 1/10 milhões de km, salvando um milhão de vidas por ano, em todo o mundo. Com o prêmio 100 vezes menor, o negócio de seguro de carro será varrido do mercado.
Os fabricantes que insistirem na produção convencional de automóveis irão à falência, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) estarão construindo computadores sobre rodas. Os carros elétricos vão dominar o mercado na próxima década.
A eletricidade vai se tornar incrivelmente barata e limpa. O preço da energia solar vai cair tanto que as empresas de carvão começarão a abandonar o mercado ao longo dos próximos 10 anos. No ano passado, o mundo já instalou mais energia solar do que à base de combustíveis fósseis. Com energia elétrica a baixo custo, a dessalinização tornará possível a obtenção de água abundante e barata.
No contexto deste futuro imaginário, os veículos serão movidos por eletricidade e a energia elétrica será produzida a partir de fontes não fósseis. A demanda por petróleo e gás natural cairá dramaticamente e será direcionada para fertilizantes, fármacos e produtos petroquímicos. Os países do Golfo serão os únicos fornecedores de petróleo no mercado mundial. Neste cenário ameaçador, as empresas de O&G que não se verticalizarem simplesmente desaparecerão.

No Brasil, o modelo de negócio desenhado para a Petrobras caminha no sentido oposto. Abrindo mão das atividades que agregam valor ao petróleo e abandonando a produção de energia verde, a Petrobras que restar não terá a mínima chance de sobrevivência futura. A conferir.” (Publicado na revista Brasil e Energia Petróleo e Gás, edição de dez/2016).

Só tem um probleminha: de fato, a tecnologia avança cada vez mais, substituindo a força de trabalho humana por modo de produção automatizado. Os trabalhadores sacados do pleno emprego irão para onde, farão o quê? Alguns se tornarão micro empreendedores, mas provavelmente serão varridos de seus setores pelas grandes empresas que monopolizam os produtos e serviços dos respectivos nichos. Sem emprego e sem empreendedorismo (há uns 10 atrás o caminho de entrada para um melhor padrão de vida, hoje espaço em queda diante da crise econômica, com queda da demanda e fortalecimento do monopólio empresarial), onde haverá renda para o consumo no mercado? A tendência é de aumento da oferta e acesso à bens e serviços. Por outro lado, também é de aumento da desigualdade de distribuição de renda e diminuição radical de acesso ao mercado por boa parte da população. Sem consumo, não há rentabilização; o mercado produz cada vez mais, frente à tendência contrária de encontrar cada vez menos consumidores. O que será de um tempo em que há bens e serviços para todos, mas dos quais nem todos (poucos) podem usufruir?
Essa é a contradição fundante do capital: capital vs trabalho. A produção de mercadorias se intensifica cada vez mais, porém o trabalho humano perde cada vez mais espaço. Haverá oferta demais, mas pouca demanda pois muitos não terão poder de acesso aos produtos e bens produzidos.
O futuro guarda o segredo ainda não relevado de como esse nó será desatado: ou o capital se reinventa e teremos uma redefinição histórica dos modos de sociabilidade e organização social, ou enfrentaremos uma crise histórica que redefinirá a sociabilidade e a organização social. Em ambas as hipóteses, passaremos por uma profunda reorganização da ordem simbólica. O futuro será o comum ou a gestão da barbárie, sob níveis globais de apartheid social jamais vistos antes.
Mas em tempos de Trump, os anúncios que ecoam no horizonte de um futuro próximo são bastante lúgubres: o ultranacionalismo xenofóbico e o fim da política ressoam nos confins do mundo que chega. É preciso uma nova narrativa histórica que capture o nacionalismo como força utópica coletiva.
Quem vai surfar nessa onda dos tempos que vem? Liberais, conservadores, comunistas, liberais-democratas? Veremos nos próximos capítulos da história. Mas o tom que se ensaia não inspira muita esperança.