NOTA #4 (01/02/17) PR

Um novo mundo é utopia?

As poucas conquistas que tivemos ao longo da história não eram desde o princípio utópicas? E não poupo preciosismo ao usar a palavra utopia num sentido bastante preciso: a ausência de lugar ou o não-lugar de alguma coisa. Mas onde há esta correlação, há tanto uma negação quanto uma afirmação: a ausência é um lugar; o lugar do sem-lugar. Ela é portanto um lugar, que aparece em seu sinal invertido, como aquilo que está enquanto não inscrito em seu lugar. A operação de dar lugar a uma ausência não é nada impossível; aliás, a política hoje é justamente isso; a divisão dos lugares e dos não-lugares, um regime de visibilidade dos modos de ser e de fazer e, portanto, de não-ser e de não-fazer. Toda negação é uma determinação, nos revelou Espinoza. Para toda ausência de lugar, há uma possibilidade infinita de inscrição. A utopia é, antes, um horizonte de infinitas possibilidade, onde a necessidade da contingência reina absoluta. É preciso que façamos disso uma dialética, reconhecendo o que foi inscrito e o que deixou de se inscrever, o que pode se inscrever e o que pode deixar de ser inscrito. A utopia é esse horizonte de expectativas onde tudo e nada é possível. Nesse não-lugar da utopia, no reino da contingência absoluta, o amanhã é incapturável por definição, e cada dia que nasce abre a possibilidade de inscrição desse não-lugar num lugar. E o amanhã não é a continuação de hoje, mas de todos os “ontem” que lhe precederam; não se criam mundos de um dia para o outro. Sem luta e luto, sem um pouco de desesperança esperançosa, sem a assunção de uma postura catastrófica de que “o pior já aconteceu”, o que vai restar é inconformação, alienação do mundo e de si e medo. Se temos só isso, então a vida é já a própria morte que não se sabe enquanto tal.
É difícil, sim, pensar e esperar um lugar onde a utopia deixe de ser apenas ausência e possa se tornar presença (e, por definição, deixe de ser utopia). Mas, afinal, quais grandes feitos da história não foram sofridos e difíceis?

NOTA #1 11/03/17 PR

Reunião transcorreu normal.
Fico instigado com a preocupação que o CEII tem com a sua própria estrutura, parecendo as vezes que é essa a questão mais urgente, encurtando o horizonte de ação para dentro dos próprios problemas do círculo.

Referências 14/03/2017 (RJ I)

Sobre auto-determinação na política moderna:

ROUSSEAU, J.J. 1762 Do Contrato Social – disponível aqui

Sobre divisão do sujeito no indivíduo:

FREUD, S. “Clivagem do Eu e Mecanismos de Defesa” – disponível aqui

Sobre o paradoxo da soberania:

AGAMBEN, G. Bataille e o paradoxo da soberaniadisponível aqui

Sobre as diferenças entre estado, comunidade e capital:

Karatani, Kojin The Structure of World History – disponível aqui

___________ Transcritique – disponível aqui

Nascimento, Joelton DIREITO E INTERCÂMBIO SOCIAL – disponível aqui

Sobre a temporalização da história:

Koselleck, R. Futuro Passado – disponível aqui

Sobre a era das expectativas decrescentes:

Arantes, P. O novo tempo do mundo (Boitempo, 2014)

Lasch, C. A Cultura do Narcisismo: A vida americana numa era de expectativas em declínio – disponível aqui
Sobre a massa anônima e o desejo na modernidade:

BRETON, A. 1928 Nadja – disponivel aqui
POE, E. A. O homem da multidão disponível aqui

Sobre a relação entre lei e transgressão:

LACAN, J. 2008 “Da Lei Moral” em Seminário VII: A Ética da Psicanálise – disponível aqui
ZIZEK, Slavoj 2010 Como Ler Lacan – disponível aqui

NOTA #5 (25/01/17) PR

Sobre a reunião que participei pelo hangout, percebi a diferença de acompanhar a reunião em tempo real, mesmo tendo falado pouco e sobre assuntos mais administrativos da célula. Sinto que ouvir os áudios e enviar as notas não suplanta o contato imediato das reuniões, e parece que a participação à distância se torna pouco relevante.

NOTA #1 (18/02/17) PR

A reunião foi formalizada, mas não aconteceu. Aproveito para compartilhar com os camaradas sobre meus estudos das últimas semanas. O que tem ocupado meu tempo é a Crítica da razão prática e os textos de Lacan sobre a constituição do sujeito, a homização forçada, o assujeitamento ao campo do Outro. Texto fantástico é o “Freud e Lacan” do Althusser, nesse ponto. Estou procurando trabalhar o esclarecimento kantiano, o advento de um novo problema com a descoberta do inconsciente (ora, o sujeito-consciente é a base de toda a filosofia iluminista.), é uma possível rota de fuga do grande Terceiro através de Foucault. Estou ciente dos problemas de Foucault com a psicanálise, mas, também da sua boa relação com a ideia da negatividade do sujeito lacaniano. Quando começar a escrever, compartilho com os camaradas.

REFERÊNCIAS 03/03/2017 (RJ II)

CEII 03 03 2017

Áudio da reunião: https://soundcloud.com/ideiaeideologia/ceii-03-03-2017-rj-ii
Texto da reunião: http://ideiaeideologia.com/wp-content/uploads/2013/02/Tradução-de-La-Chiesa-e-il-Regno.pdf

Sobre a noção de tempo apocalíptico: 
KOESTER, C. Revelation: a new translation with introduction and commentary, p. 119-121. Disponível para download aqui.

Sobre o tempo em Heidegger: 
HEIDEGGER, M. Il concetto di tempo, a cura di Franco Volpi. Disponível para download aqui.

Sobre Agamben e sua leitura do tempo em São Paulo:
AGAMBEN, G. Il tempo che resta: un commento alla Lettera ai Romani. Disponível para download aqui.
“As lembranças, por favor, não.” Entrevista com Agamben – disponível para acesso aqui.

Tarefa de investigação da célula: 

Investigar o tempo cronológico, o tempo subjetivo e o tempo organizacional.

NOTA #2 (11/02/17) PR

“Os caçadores de Bolsonaro trabalham para Bolsonaro e os caçadores de Wyllys trabalham para Wyllys. Essa estrutura de identidade amigo-inimigo é o que a filosofia chama de estrutura de biunivocidade. É isso o que define a absoluta falência da crítica que vivemos hoje, produzida pela universalização do capital. É por causa disso que muitas vezes (nem todas) os militantes prestam um desserviço para as causas em nome das quais militam. Vejo apenas dois caminhos capazes de sair desse paradoxo. 1. Ignorar sumariamente o inimigo. 2. Engajar-se em ações estritamente positivas e propositivas. O primeiro caminho seria a reformulação do ceticismo e do estoicismo políticos. Assim como Maquiavel separou política e moral, cabe a nós separar a política e as paixões. Essa é uma visão muito próxima ao realpolitik. Uma concepção fria e calculista. A política entendida como xadrez. O segundo caminho não ignora a ação. Mas desenvolve meios de nunca implicar o inimigo em nenhuma ação. Evita transformar a negatividade em munição para os soldados da trincheira alheia. Esta segunda é para mim a mais interessante. Embora seja a mais cruel. Consiste em reduzir o inimigo à mais absoluta indiferença, ao silêncio, à desaparição pública. A política entendida como arte marcial. Ambas são difíceis. Muito difíceis. Não se restringem ao que comumente se chama de política. Exigem uma nova ataraxia. Um elevado grau de desprendimento e de controle das paixões. Talvez seja esse o ponto. A indiferença e a impassibilidade talvez sejam as novas armas de destruição em massa das democracias digitais. Não destroem o inimigo. Reduzem-no à inoperosidade, como dizia Agamben. Reduzem-no simplesmente a nada.” (Rodrigo Petrônio)