NOTA #1 (08/04/17) PR

Na reunião, deu-se continuidade à leitura do Manifesto do Partido Comunista. Debateu-se política e estrutura, buscando-se analisar os problemas enfrentados atualmente. Leu-se a nota de um colega, e por meio dela foi possível compreender vários aspectos que afligem a sociedade (política) atualmente. Questionou-se sobre os métodos utilizados pela esquerda em discurso, chegando-se a conclusão da necessidade de abertura ao outro, não o excluindo ou impondo uma posição, mas buscando sua integração, entendendo suas perspectivas e concepções, mostrando possibilidades e contraposições. A abertura para o diálogo pode se mostrar muito mais eficaz do que a guerra declarada e a exaltação de espectros. O discurso de ódio ganha cada vez mais força com a notoriedade que a ele se dá. Talvez devêssemos olhar para outros caminhos, encontrar outras formas de combatê-lo.

Nas palavras de Alan Badiou¹ (Votar, ou reinventar a política?),

“O desenvolvimento do capitalismo pode trazer algumas incertezas quanto ao valor do consenso parlamentar, e à confiança atribuída – durante o ritual eleitoral – aos ‘grandes’ partidos conservadores ou reformistas. Isso é especialmente verdadeiro no caso da pequena-burguesia que tem seu status social ameaçado, ou em regiões de classe trabalhadora devastadas pela desindustrialização. Vemos isso no Ocidente, onde podemos observar uma espécie de decadência em face do poder ascendente dos países asiáticos. Essa crise subjetiva atual favorece sem dúvida orientações pró-fascistas, nacionalistas, religiosas, islamofóbicas, e beligerantes, porque o medo é uma mau conselheiro, e essas subjetividades marcadas pela crise são tentadas a se apegar a mitos identitários. Sobretudo, porque a hipótese comunista emergiu terrivelmente enfraquecida do fracasso histórico de todas as suas versões primeiras, estatizantes, especialmente a URSS e a República Popular da China.
A consequência dessa falha é auto-evidente: uma boa parte da juventude, dos desprivilegiados, dos trabalhadores abandonados, e do proletariado nômade de nossos subúrbios estão convencidos de que a única alternativa a nosso consenso parlamentar é a política fascista de identidades ressentidas, racismo e nacionalismo.

Se quisermos nos opor a essa terrível situação, somente um caminho se abre a nossa frente: reinventar o comunismo.”

1 Disponível em: https://lavrapalavra.com/2017/04/24/votar-ou-reinventar-a-politica/ Traduzido por Aukai Leisner.

NOTA #3 (11/03/17) PR

“Peter Sloterdijk não é um pensador do século XXI. É um pensador para o terceiro milênio. Seu ceticismo é tão acentuado que desperta em nós a alegria afirmativa e a liberdade criadora daqueles que, não acreditando em nada, sorriem rumo ao horizonte vazio de qualquer ilusão. Por isso, seu pensamento, mais do que uma reconstrução do passado, é uma arqueologia que vem do futuro mais longínquo para iluminar as camadas mais profundas do que um dia pudéramos vir a ser. Afinal, apenas um pensamento extemporâneo pode compreender futuro e passado como reversos luminosos e como a coincidentia oppositorum da mesma precária condição humana. Para mim, Platão e Nietzsche são os maiores pensadores de toda a filosofia e estão entre os maiores escritores da humanidade. Enquanto aquele foi o maior imunólogo da civilização, que conseguiu blindar o real por meio da criação da mais poderosa tecnologia eidética de que se tem notícia, este foi o primeiro a perceber que a verdade apenas se revela com a devastação sumária e a marteladas dos castelos conceituais imunológicos. Ambos representam os pontos mais elevados das esferas e das antiesferas no pensamento ocidental. Nada mais gratificante do que descobrir um pensador contemporâneo, mestre imbatível na arte do ensaio, que conseguiu propor uma temerosa e absolutamente inaudita síntese destes dois antípodas, colocando-os para dançar. Com isso, entre diversos outros achados iluminados e luminosos, Sloterdijk demonstrou que as oposições só existem para aqueles que não conseguem ouvir a música das esferas.” PETRONIO, Rodrigo. UMA ANTROPOLOGIA PARA ALÉM DO HOMEM: RELIGIÃO E HOMINIZAÇÃO NA OBRA ESFERAS DE PETER SLOTERDIJK. [dissertação de mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP – 2013], p. 25.

NOTA #2 (11/03/17) PR

Ao que tudo indica, caminhamos lentamente para a destruição. A nossa destruição, e logo, de tudo o que existe, pois não há nada que exista fora do pensamento. O que está para além disso é menos que nada.
Ora, mas não estamos na era do progresso? Não disseram que o desenvolvimento tecnológico e econômico era a coroação do progresso humanitário? Essa é uma promessa velha que ressoa desde o séc. XVIII. As Revoluções Burguesas (Industrial, Francesa) impulsionaram toda uma lógica de desenvolvimentismo acumulacionista que supostamente engatilharia uma ética humanitarista e solidária absoluta. E de certa forma até conseguiram o resultado pretendido, mas o custo foi esvaziar toda essa cadeia de significantes e perverter todos os seus significados.
O desenvolvimento tecnológico, das relações de produção, dos meios de produção existe, de fato. O problema é que desenvolvimento não tem nada a ver com uma conceituação positiva, a não ser num sentido daquilo que desloca-se como aparecimento. Desenvolvimento é evolução, o que também nada a ver tem com um sentido positivo – num sentido de algo que é bom, benéfico ou melhor – mas apenas representa o movimento de um ser que transpõe a forma e conteúdo daquilo que era. Isso quer dizer apenas que uma coisa que era uma coisa se tornou outra coisa. Melhor, pior, bom, ruim…essas são categorias de um juízo moral de valor que nada tem a ver com a questão. Aliás, apenas mistifica o fenômeno e atrapalha sua devida reflexão como conceito.
Meus caros, o único desenvolvimento que podemos assistir agora é o desenvolvimento para a morte. Para a uma destruição cataclismática. Essa é uma certeza histórica, um evento que se tornou inevitável, pois há tempos passamos do ponto-limite de retorno. O desenvolvimento tecnológico, a lógica de acumulação, o agravamento das desigualdades sociais, as crises econômicas e políticas, a iminência de uma catástrofe ambiental: estes fenômenos estão todos interligados como causas e efeitos entre si e enfileiram-se uns aos outros como encadeamentos de uma necessidade ontológica.
Mas então é isso? Não podemos fazer mais nada?
Sim e não.
Há uma sobredeterminação – num sentido althusseriano – que, em última instância, parece sempre direcionar o movimento histórico para um certo deslocamento-tendência. A ausência do futuro é, pois, uma certeza história “muito provável”. Mas a História sempre comporta um interseccionamento das contingências, acontecimentos “imprevisíveis”, inesperados, que podem descontinuar essa certeza histórica.
Acredito que nos momentos mais críticos a contingência pode imprimir uma ruptura violenta com as tendências histórias e atualmente vivemos esses tempos críticos. Se há medo, é porque há esperança. E se há ou pode haver um futuro, ele só poderá ser comum. A contingência da sobrevinda de uma Ideia do comum é uma certeza histórica necessária.
É no comum que pode haver futuro, ou não haverá futuro de forma alguma.

NOTA #3 (18/02/17) PR

“Bolsonaro é uma aberração? Bom. Faço uma autobiografia. Sou anarquista desde a barriga da minha mãe. Cresci no movimento punk se SP. Desde os 15 anos, minha formação foi basicamente: poetas malditos do século XIX, Rimbaud, os beats, os surrealistas, Bakunin, Kropotkin, Baudelaire, Sade, Lautréamont, Doors, Hendrix, psicodelia, contracultura, pancadaria. Não me interessava pela esquerda e nem por Marx. O meu gosto por Marx é tardio. Pareciam-me muito organizados. Muito racionais. Racionais demais para serem verdadeiros. Custei a comprar a narrativa de uma emancipação coletiva. Ainda hoje ainda não me desce bem.

Entre os 25 e os 30 anos, tive um colapso. Muitas portadas. Puxadas de tapete, separações, golpes, humilhações, vigarices, perversões. Traições de todos os lados. Um verdadeiro corredor polonês. Sim. Também fui mau e escroto em alguns casos. Sofri e fiz sofrer. Qual o resultado? O discurso da esquerda progressista, terceira-via, cabeça, racional, cult, Vila Madalena, equilibrada e bacana me parecia extremamente superficial diante dos problemas existenciais que eu estava passando. Onde eu fui buscar insumo? No radicalismo da estrema-direita.

Li, muito e intensamente, coisas que vcs nem acreditam. Autores e obras cujos nomes hoje chego a ter vergonha de citar em público. Por quê? Porque essa crise me demonstrou a platitude e a mentira da democracia ocidental. Comecei a perceber a inoperância dos termos médios, sejam eles o liberalismo aguado dos liberais ou a democracia aguada das esquerdas liberais. Quase me converti ao Islã. Embora nunca tenha sequer cogitado qualquer ato de violência, comecei a perceber uma estranha e sombria racionalidade no terrorismo. Quase como uma fatalidade indesejada do sistema.

Felizmente, a vida resolveu em mim as contradições. O ódio se dissolveu em compreensão. As más experiências foram transformadas por experiências boas. Voltei a ter bons encontros e paixões felizes, como diria Espinosa. Ou seja: voltei a ver a vida como potência. Hoje, para mim, aquela alma ressentida, sombria e beligerante, conservadora e combativa, parece a alma de outra pessoa. É uma imagem na qual, embora seja minha, não mais me reconheço. Não me pertence mais.

Contudo, continuo pensando na quantidade de almas penadas que vagam por aí. Tenho pena. Preocupo-me. E me reconheço nelas. São zumbis de ressentimento, ódio e desamor, ou seja, apoiam-se como náufragos nos destroços subjetivos que dão sentido a todo fundamentalismo. São os fantasmas daquilo que eu fora outrora. Fantasmas que eu felizmente consegui superar e transcender.

O que trago como ensinamento? Talvez nesses fantasmas não haja apenas ódio. Talvez haja neles algum impulso vital. Uma energia política que o puritanismo não consegue captar. A ortodoxia das ideologias nos impede de ver camadas psicopolíticas valiosas. Verdadeiras transvalorações que nossa moral puritana nega e demoniza. E, assim, puritana, negadora e denegadora, a esquerda infelizmente não consegue reverter essa potência libidinal revolucionária em seu benefício. Não consegue se valer das armas de seu inimigo.”

Por Rodrigo Petronio.