NOTA #3 [22/04/2020] (RJ I)

Tese 4   “Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo”.  Hegel, 1807 
A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.
Teses sobre o conceito de história (1940) – Walter Benjamin 

NOTA #2 [22/04/2020] (RJ I)

Tese 12 
“Precisamos da história, mas não como precisam dela os ociosos que passeiam no jardim da ciência.”  Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida

O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados”.
Teses sobre o conceito de história (1940) – Walter Benjamin 

NOTA #1 [22/04/2020] (RJ I)

Eu gostei bastante da ideia do CEII como um espaço funcionando pela lógica do superego materno na última reunião. Que o CEII mais seja para que os membros pautem o coletivo, e não que o coletivo dê as pautas aos membros. E daí remetendo ao modo de organização política no CEII, apareceu na última reunião a ideia de que a proposta-CEII não é muito a da lógica partidária de uma instrumentalização dos membros uns pelos outros (organizar e ser organizado), mas mais um compromisso com um espaço comum, o qual fornece os meios para que cada um alcance seus diferentes fins (talvez um tipo de terceiro termo em relação ao binômio entre organização que é um fim em si mesma e à qual os membros ‘servem’, e a organização que é apenas um meio para atingir um fim maior comum, como o comunismo).Assim, a lógica do CEII talvez fosse mais de fazer o comum aparecer como o próprio espaço cultivado pelos membros para ajudar todxs a alcançar seus fins (o florescimento das individualidades sob o comunismo?).
Outra ideia interessante foi a da relação do CEII com o tempo. Pensando que o capitalismo tardio funciona por uma lógica espacial dispersa, de excesso de estímulos simultâneos que escapam à síntese, e não nos permitem visualizar uma narrativa estruturada, o CEII talvez funcione com uma contra-lógica, procurando temporalizar essa lógica espacial, organizar historicamente a lógica dos acontecimentos. Poderia ser essa uma estratégia para parar de reagir aos acontecimentos postos pela oposição (gritos de ‘não passarão!’), e começar a usar esse histórico estruturado para pensar projetos de futuro? Será que as notas servem para construir essa memória como “ferramenta revolucionária”? Será que essa ideia é só consequência do meu narcisismo tentando me convencer de que estou ‘fazendo a revolução’ ao escrever notas?

NOTA #6 [08/04/2020] (RJ I)

Dito tudo o que foi dito nas notas 1 e 2 sobre a composição artista-trabalhador, sugiro que voltemos ao texto “O fim da organização” para entendermos melhor este espaço que o CEII ocupa e 1- como a suspensão do objetivo emancipatório pode em si mesma ser uma emancipação; 2- como essa emancipação temporária não seria cooptada como justamente desmobilizando da “luta maior”, que pediria adiamento da gratificação para o momento de realização do comum.

NOTA #7 [01/04/2020] (RJ I)

Continuando a nota sobre a ética do CEII e a possibilidade de uma composição artista-militante.
Pensando nesses assuntos, escrevi o seguinte texto, em colaboração com um amigo, que tem a tese do “artista falido” como categoria diferente da de “artista”. Isso torna a idéia um tanto engraçada, porque então a maioria dos artistas não são artistas e sim “artistas falidos”. A idéia é que o artista falido é um trabalhador assalariado sim, e o faz pelos mesmos motivos dos trabalhadores não-artistas e mais o motivo suplementar de sustentar a própria arte (compra de materiais, livros, etc). Diferentemente do capitalista, mas, de fato, próximo do micro-empreendedor que pretende simplesmente manter a própria subsistência, o artista-trabalhador trabalha como os outros e trabalha também tendo em vista o tempo liberado que poderá produzir um dia para a própria arte- e, se tiver sorte, por meio dela. Assim, o fato de ele se dividir entre trabalho assalariado e arte o coloca como alguém que deposita as esperanças no trabalho para liberar o tempo para a arte, e na arte para liberar o tempo de sua submissão ao trabalho.
Isso nos lembrou o trecho de Marx citado num texto importante do CEII- “O fim da organização”.
Cito: 

   Os trabalhadores se reúnem e apropriam-se “de uma nova carência, a carência de sociedade, e o que aparece como meio, tornou-se fim. (…) Nessas circunstâncias, fumar, beber, comer, etc. não existem mais como meios de união ou como meios que unem. A companhia, a associação, o entretenimento, que novamente têm a sociedade como fim, basta a eles; a fraternidade dos homens não é nenhuma frase, mas sim verdade para eles, e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir dessas figuras endurecidas pelo trabalho.”[1]

E nosso texto continua:

“Esta reversão entre meios e fins[2]– a reunião e organização como um meio para a revolução se torna um fim em si mesmo, malgrado ser malvista por algumas pessoas engajadas na militância como uma desativação do ímpeto revolucionário, exibe não a confraternização como solução e desativação das demandas de emancipação e sim como lugar onde a carência desta associação, prazer, entretenimento, em suma, se torna visível a todos, e na prática artística essa carência encontra uma realização possível. Uma carência que não é do tempo livre determinado pelos limites do tempo do trabalho, mas do tempo liberado. Uma carência que, ao ter sua existência enquanto carência admitida, pode vir a ser motivadora para o exercício da transformação social.

2.      Não se trata de apenas compreender as condições do sistema de arte, mas de transformá-las. A constituição da composição artista-trabalhador é a constituição da organização autônoma onde são temporariamente suspensos os imperativos e demandas de sobrevivência de cada um. A organização é a obra e a teoria e o prazer e a vivência. O tempo da construção do futuro é o tempo livre que se torna liberado. O mapa dessa transformação só poderá ir sendo recolhido pelo exercício da própria organização.

3.      O artista trabalha por salário para liberar o tempo para a arte, e faz a arte para conseguir um dia se liberar do tempo do trabalho.  Das duas maneiras o fato de haver uma disjunção interna na sua vida de trabalhador e artista mostra um horizonte de demandas possível- o do tempo liberado- que se confunde com a conquista do comum. Esse horizonte só se faz presente por meio da consciência da falta- que não é simplesmente a falta que existe, embora não saibamos, mas a falta que é sentida como falta quando temos o gostinho da liberdade permitida pelo tempo livre.”

A pergunta que fica é: de que maneira concretamente se pode constituir uma organização que faça a composição do artista e do trabalhador, se utilizando desse espaço da “inutilidade” que une um e outro como carentes e despossuídos?


[1] Marx- “Manuscritos econômico-filosóficos”, pp 145-46

[2] Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia. “O fim da organização” https://lavrapalavra.com/2016/05/20/o-fim-da-organizacao/