NOTA #9 [25/03/2020] (RJ I)

Tenho pensado muito sobre a ética do CEII e a possibilidade de uma convergência entre a militância política e a artística. O crítico e militante Ben Davis coloca no seu 9.5 theses on art and politics que há uma disjunção de base entre o movimento dos trabalhadores e o dos artistas, que consiste, basicamente, no fato de que o artista não é estruturalmente um trabalhador assalariado. Cito: 

“Artists are eager to identify themselves with—and even lay claim to—efforts like the Occupy movement, but their involvement, Davis argues, muddles protest and derails organizational efforts more often than not. When artistic practice is posited as a politics, it tends to emphasize individual effort and distract movements from pursuing the sort of social change that could benefit that large portion of the population not interested in living their lives as art.

(…)

Because artists, unlike wage laborers, have a direct stake in what they produce and face no workplace discipline other than what they impose on themselves, their political attitudes are structurally different from those of the working class, who know they are interchangeable parts in the machine of capitalism and must organize collectively to resist it. “The predominant character” of the contemporary art scene, on the other hand, “is middle class,” Davis contends, referring not to a particular income or earning potential but rather to artists’ relation to their labor. Artists work for themselves, own what they make, and must concern themselves with how to sell it

(….)

Artists must produce their reputation as a singular commodity on the market, which makes their chief obstacle other would-be artists rather than capitalism as a system, regardless of whatever critical content might inhere in their work. When artists patronize the working class with declarations of solidarity, their vows are motivated less by a desire for social change than by the imperative that they enhance the distinctive value of their personal brand.”
O artista é algo mais próximo de um micro-empreendedor, alguém que produz e precisa se engajar em auto-promoção individual para que seus produtos encontrem um mercado. De tal forma que o engajamento direto do artista nas demandas dos trabalhadores se transmutaria em ganho de capital social pelo artista e pouca contribuição ao movimento político. Um exemplo dado é o uso da greve pelos trabalhadores no intuito de pressionar por melhorias salariais e de condições e o movimento da “greve da arte” proposto pelos neoístas. A idéia de “greve” não se comporta da mesma maneira dos dois lados. Enquanto há um alvo preciso e uma consequência almejada- a perda de produção e lucro por parte do empregador- de um lado; do outro há um difuso “castigo” direcionado à sociedade consumidora de produtos culturais, cuja demanda é pouco clara, e como tal, não propõe um critério para o fim da greve.A greve se converte em *imagem* da greve, como muitas vezes ocorre na arte.
Cito um trecho de outro trabalho com um exemplo interessante: “Lembro-me de uma experiência interessante que tive em um evento do grupo Wandelweiser em Paris em 2012. Grupo de compositores, a sua maioria radicados na Suíça e Alemanha, que tomam o silêncio cageano como material para a composição. A música do Wandelweiser é frequentemente caracterizada como “música silenciosa”, pela enorme quantidade de pausas que a caracteriza. O Ensemble Dedalus executava obras de Antoine Beuger, Radu Malfatti, Jürg Frey e Michael Pisaro em uma espécie de galpão que era parte do Instants Chavirés, espaço dedicado ao noise e música experimental localizado em Montreuil, logo na saída de Paris. Na ocasião fazia frio, o galpão intencionalmente não tinha calefação. Havia goteiras no espaço e o som do tráfego do lado de fora, que era discreto o suficiente para se interpenetrar em meio aos silêncios das peças sem obstruir a escuta dos sons que compunham as peças.

Há uma escuta do silêncio implicada nesta música, na qual, além de momento de pausarespiração para as atividades dos instrumentistas, ele é também o momento em que se ouve o ambiente onde a peça está acontecendo. Existe uma tentativa de integrar dentro da música as “perturbações” sonoras do em torno, em consonância com as “transparências” de Cage, tal como nos fala Branden Joseph. A música se comporta como uma mudança na paisagem sonora, mais do que como um corpo/objeto fechado a ser contemplado. É assim inclusive que Michael Pisaro, compositor do grupo, em um vídeo sobre a sua atividade de professor, define o papel do compositor: “Aquele que modifica a paisagem sonora”. Afirmação muito interessante em nosso contexto na medida em que parece, exatamente, abdicar da totalidade funcional requerida para as obras. Vale retomar também a caracterização feita pelo mesmo compositor do silêncio proposto pelas peças Wandelweiser:

Durante a execução de uma das peças, um alarme de um carro dispara e produz um som alto e invasivo dentro da performance. Cria-se um impasse. A música continua por um tempo, mas o alarme impede qualquer relação com o que está sendo produzido no “palco”. Os músicos acabam por decidir parar de tocar e esperar o alarme cessar para então recomeçar a peça.

A princípio a decisão nos parece normal. Em qualquer obra da tradição de concerto, se um som extremamente invasivo é produzido na platéia de forma contínua, a tendência seria parar e esperar para recomeçar de algum ponto. Mas o que interessa justamente é o significado de uma tal decisão dentro de uma prática que se quer “permeável” ao que acontece. Que se quer aberta a quaisquer ocorrências, procurando acolhê-las em seu interior. Neste caso, o alarme não deveria ter sido integrado? O alarme foi percebido como elemento externo e decidiu-se por eliminá-lo da performance. Se há uma adesão ao conceito cageano de ‘natureza’ dentro da prática Wandelweiser, pode-se perguntar se esta natureza abrange realmente ‘o que acontece’, ou se existe um limite de integração possível. No limite, se caísse um meteoro no espaço de performance, o evento teria de ser interrompido. 

Começamos a presente tese mencionando o experimento de pensamento proposto por Arthur Danto ao início de A transfiguração do lugar-comum. Para recapitularmos, este experimento propunha uma série de objetos com as mesmas propriedades físicas: tábuas quadradas pintadas de vermelho. Alguns destes eram obras de arte, outros eram objetos de interesse arqueológico, outro, um objeto absolutamente prosaico. Dentre as obras de arte haviam títulos que representavam eventos: “O estado de espirito de Soren Kierkegaard”; outros representavam lugares, como “Praça Vermelha”. Um outro título descrevia o conteúdo do quadro literalmente: “Quadrado Vermelho”. Tais títulos ilustram diferentes relações simbólicas entre o quadro e o que, supostamente, ele deveria representar. “O estado de espírito de Soren Kierkegaard” apresenta uma relação metafórica entre o vermelho do quadro em uma sensação, evocada no título. “Praça Vermelha” é, ainda, metafórica, mas propõe que o quadro seja, em um certo sentido, figurativo- enquanto representação de um lugar. E “Quadrado Vermelho” descreveria literalmente o conteúdo do quadro: um quadrado vermelho. Tais atos de nomeação, ainda que de formas diversas, possuem uma função em comum: a função simbólica. A obra de arte que eles são parece existir para que seja feito um esforço de interpretação de seus conteúdos. Que relação teriam os títulos com o que a obra mostra? O título é relevante para o conteúdo da obra? Alguns diriam sim, outros diriam não. Mas o experimento de pensamento proposto por Danto mostra como certos elementos que determinam o pertencimento de determinado objeto à categoria “Obra de arte” seria tributário de um contexto de fruição e de acontecimento da própria obra: em que contexto está inserido o objeto? Ele foi feito por uma pessoa? É ele um acontecimento natural? A relação do título com o indiscernível que é o objeto físico em questão contribui em grande medida para a função simbólica desempenhada pelo objeto: o processo imaginativo daquele que se põe a observar um quadrado vermelho com tais títulos se apressa em realizar o ajuste de título e objeto, inferindo a partir daí as intenções do autor, o objetivo daquele projeto, e assim em diante.

Dissemos também em nossa introdução que o projeto aqui delineado teria algo em comum com o experimento de pensamento proposto por Danto. Trata-se de captar algumas especificidades da ação musical a partir de um exemplo que propunha em algum nível (ou desejava propor) também uma indiscernibilidade: o exemplo mais expressivo foi a peça silenciosa de Cage, que apresentaria uma indiscernibilidade entre uma obra musical e os eventos sonoros tais quais acontecem, mobilizando as ações de um intérprete de música de concerto (em geral, um pianista), para apresentar por meio de sua não interferência, esta paisagem sonora “natural”. Alguém poderia objetar que não se trata a rigor de um indiscernível, uma vez que a própria ação teatral efetuada pelo pianista colocaria a obra de Cage definitivamente no interior da música de concerto. Podemos aceitar a objeção, mas o argumento que quero propor se sustentaria com uma versão menos forte da indiscernibilidade: a obra de Cage pretende-se um pretexto- uma pressuposição de obra- que determinaria em parte os comportamentos de recepção de um público de concerto, substituindo então o conteúdo do concerto pelos sons naturais que casualmente acontecem. De uma forma ou de outra, há uma tentativa de abertura aos sons não-aculturados do cotidiano e, desta maneira, uma não-ação que procuraria deixá-los estarem. O problema aqui se coloca de forma imediata no interior do projeto de não-separação entre arte e vida. E também no interior de uma crítica ao antropocentrismo.

Sinead Murphy em seu The Art Kettle oferece um outro exemplo. Em Junho de 2001, Brian Haw organizou um protesto fora do parlamento inglês contra a participação da Grã Bretanha à invasão no Iraque. Haw montou uma série de cartazes manifestando a sua posição de repúdio à decisão do governo. Ele viveu por cinco anos 24 horas por dia em seu protesto até o ano de 2006, quando foi dispersado pela polícia em decorrência de um ato institucional que teria sido aprovado no ano anterior que proibiria protestos não autorizados em um raio de um quilômetro ao redor do parlamento. O artista Mark Wallinger, antes do desmonte do protesto, registrou cuidadosamente o trabalho de Haw com fotografias e, no ano seguinte de 2007, remontou o protesto no interior da Tate Britain. Esta era localizada parcialmente no interior do raio de um quilômetro onde era proibido realizar manifestações. Murphy passa então a se perguntar: por que a polícia não desmontou a obra de arte de Wallinger, dado que esta era praticamente indiscernível do protesto de Brian Haw?

O que os exemplos dados por Danto e Murphy têm a nos dizer ao final desta tese? No caso de Danto o devir-obra faz, certamente, o objeto ganhar algo. Tal como dito na introdução de seu livro, a obra é para ele significado corporificado. Assim, é o fator significado que se torna o critério de desempate entre seus indiscerníveis. Nas suas palavras, “o ponto lógico, ao garantir que, se a não é idêntico a b, então deve haver uma propriedade F tal que a é F e b não é F, não exige que F seja uma propriedade perceptiva”. Isto quer dizer que, em meio a objetos perceptivamente indiscerníveis, deve haver uma propriedade que determine, caso um seja uma obra de arte e outro não, uma diferença entre tais objetos. Para Danto, esta propriedade é uma propriedade relacional. O significado de que Danto fala é, portanto, uma propriedade relacional, dada pela interpretação do objeto no interior de uma prática. Este mesmo caráter relacional determina, também, no caso de Murphy, que o devir-obra faz a não-obra perder algo. Ao alocar o protesto de Brian Haw para a galeria de arte, este perde completamente a sua efetividade. Não incomoda mais enquanto protesto e passa a ser observado como objeto estético. Mas por que? Enquanto obra de arte, o protesto de Haw emoldurado por Wallinger passa a não funcionar diretamente e sem mediações. Ele entra no mundo da arte e passa a funcionar simbolicamente- ele próprio é uma mediação- um objeto que faz referência a algo distinto. Não estamos aqui tão distantes da pintura figurativa.

No exemplo anteriormente dado havia uma preocupação com resultados estéticos presidindo a decisão de parar de tocar quando se deu o disparo do alarme de carro. Esta atitude nos faz nos perguntar sobre o estatuto deste silêncio cageano: é ele um silêncio absoluto- uma forma de silenciar a vontade e todo o antropomorfismo e deixar o mundo soar? Ou é ele mesmo mimese, e, no sentido que aqui colocamos não seria a mimese desejada por Cage- a idéia de imitar a natureza em sua forma de operação- mas uma imitação estetizada de um silêncio, ele próprio, mais radical? Diferentemente do discurso de Cage, se trataria aqui de uma imitação da própria imitação- uma estetização do silêncio na qual o que é exibido é uma imagem deste mundo que soa e não, de forma bruta e imediata, uma abertura a este mundo enquanto se apresenta na empiria.”

No exemplo existe um engajamento específico com a posição proposta por John Cage de “abrir a obra ao seu Fora”, mas creio que o exemplo dado por Sinead Murphy coloca bem o problema da mudança que ocorre quando uma demanda sai da esfera da militância política para a esfera da “representação” artística- o que ganha, o que perde. 

Continuo na nota seguinte.

NOTA #5 [08/04/2020] (RJ I)

A ideia, surgida na última reunião, do balanço do CEII como uma espécie de historicização me remeteu a um psicólogo crítico chamado Martín-Baró. Ainda que numa abordagem talvez ultrapassada, pois muito dependente da velha noção de conscientização (noção um tanto cega para os nossos tempos pós-modernos e toda sua parafernália do cinismo, da falsa consciência esclarecida etc.), esse autor pensava numa perspectiva libertadora que aliasse memória histórica e a descoberta do que se pode vir-a-ser. Em poucas palavras, um olhar para o passado que paradoxalmente permitisse vislumbrar um futuro. Não à toa, esse camarada vai desenvolver seu pensamento desde a periferia latino-americana (a nossa, afinal!), cuja a posse da própria história teria sido recusada pelo ato europeu da “descoberta”. Pois bem, eu dei esse rodeio todo para dizer que o esforço ceiiano de historicização me parece, nesse sentido, fundamental em nosso contexto tupiniquim excessivamente marcado pela não elaboração de traumas passados (e, consequentemente, pela repetição incessante destes num futuro com sabor de déjà vu), como o da própria colonização, do genocídio dos indígenas, da escravidão dos africanos, das ditaduras e seus bonapartismos, e tudo mais que nos interdita um futuro através de uma perpétua atualização da desgraça nacional… Mais uma vez, o CEII situando-se no interior do antagonismo social.

NOTA #6 [01/04/2020] (RJ I)

Sobre o balanço do CEII no qual estamos engajados, uma leitura recente de um livrinho do Perry Anderson me lembrou das nossas reuniões… Tentando definir o que dá inteligibilidade pro marxismo em sua especificidade “crítica”, o Anderson fala em duas condições de possibilidade: estar situado dentro da intrincada trama da luta de classes (nacional e internacional) e ser marcado por um ímpeto de autocrítica que busque mapear as cegueiras e obstruções internas. Bom, esta nota é a mera afirmação de uma possível obviedade: o CEII é crítico!
Obs.: O livro do Anderson trata sobre a crise da crise do marxismo. O que me pareceu pertinente, já que o CEII (se tô entendendo bem) existe em estado de perpétua crise e o balanço atual seria uma versão nossa de uma crise da própria crise.

NOTA #14 [18/03/2020] (RJ I)

Espírito

  1. parte imaterial do ser humano; alma.
  2. RELIGIÃO ser supremo; divindade.☞ inicial maiúsc. “o grande E. dos índios da América do Norte”
  3. entidade sobrenatural ou imaginária (anjo, duende, diabo etc.), que pode ser ligada ao bem ou ao mal.
    “e. do bem”
  4. espectro, fantasma.
  5. RELIGIÃO sopro criador de Deus (nos textos bíblicos).
  6. princípio vital, superior à matéria; sopro.
    “o e. da vida”
  7. substância imaterial, incorpórea, inteligente, consciente de si, onde se situam os processos psíquicos, a vontade, os princípios morais.
  8. mente, pensamento, cabeça.
    “a cena não me sai do e.”
  9. inteligência ou pessoa inteligente.
    “um e. admirável”
  10. comicidade, humor, graça, ironia. “ter e.”
  11. FILOSOFIA pensamento em geral, princípio pensante, sujeito da representação, por oposição a seu objeto (a matéria e a natureza).
  12. FILOSOFIA no hegelianismo, princípio dinâmico, infinito, impessoal e imaterial que conduz a história da humanidade, e que se manifesta no ser humano como plena razão e liberdade.
  13. tendência, disposição. “e. empreendedor”
  14. ideia ou intenção predominante; significação real.
    “o e. da lei”
  15. traço, característica.
    “o e. da época”
  16. ANTIGO•ALQUIMIA
    líquido obtido pela destilação; álcool, álcool etílico. POR EXTENSÃO
    qualquer bebida alcoólica. INFORMAL•BRASILEIRISMO aguardente de cana; cachaça.
  17. GRAMÁTICA grau de intensidade da aspiração na pronúncia das vogais iniciais, em grego.
  18. GRAMÁTICA sinal diacrítico da língua grega, que é colocado sobre vogais ou ditongos iniciais, para indicar se são ou não aspirados, e sobre a consoante inicial rô.

Origem
⊙ ETIM lat. spirĭtus,us ‘sopro, exalação, espírito, alma’, ligado ao v.lat. spirāre ‘soprar, respirar’

NOTA #8 [25/03/2020] (RJ I)

 Aviso: essa nota é fruto de várias inquietações sobrepujadas, eu não sei se tem um sentido, tô colando aqui pra ver o que sai

Antes de tudo preciso dizer que sou novo aqui, tudo me parece estranho e tudo me inquieta por isso posso soar confuso. Em uma das últimas reuniões o Gabriel falou algo que eu não tinha entendido até que fosse explicitamente dito: o CEII não tem hierarquia. Pelo que entendi, o coletivo tem uma pegada de qualquer um poder jogar uma ideia e se tiver gente que tope a coisa rola virando um subgrupo do conjunto maior com o total de membros. Isso me parece estranho porque em todas as instituições em que estive sempre teve um manda chuva.

 Mas isso de “ninguém manda, todo mundo contribui”, pra mim, é bacana porque aqui tem graduados, especialistas, mestres e doutores que estão dispostos a botar o ego de lado e a passar a bola pra que outra pessoa possa falar e acrescentar na discussão. O que é bem massa porque pra ser bem sincero eu só tenho dúvidas. E muitas vezes nem isso, porque pra tu teres uma dúvida sobre a coisa tu tem que conhecer ela e tem vez que a discussão gira em torno de algo que o autor fulano de tal falou e eu não sei nem quem é o fulano de tal, muito menos o que ele falou. Mas ouvindo a discussão eu aprendo. Ganho material pra pesquisar, novas perspectivas e inquietações. E é isso que me move dentro do círculo.

Quando eu cheguei aqui já não tinha muita gente transitando pelo coletivo. Acompanhando as conversas no whats, e tirando umas dúvidas com o SG entendi, mais ou menos, que antes tinham reuniões presenciais mas que essas tinham sido substituídas por reuniões online. Eu compreendo que essa mudança mexeu bastante na organização do coletivo e pode ter sido um agente desmobilizador. Mas pra mim que não sou do Rio era muito bom, porque significava que eu poderia participar de todas as atividades do coletivo. Mas pra que eu tô falando de mim no contexto do que parece ser o leito de morte do CEII?

É que como o gigante brasileiro eu também só acordei em 2016.  E desde lá tô procurando um espaço onde eu possa me esclarecer sobre o contexto político brasileiro e mundial, e no CEII eu encontrei isso aliado a psicanálise. Um prato cheio. O CEII, mesmo em crise da crise, me proporcionou oportunidades que aqui perto de mim não tinham. E eu esperava, talvez repetindo a trajetória de outros membros, construir uma trajetória acadêmica através do coletivo.

Sinto que devo ter soado como um inimigo do fim. Mas é só porque eu sou mesmo.

NOTA #13 [18/03/2020] (RJ I)

Apenas uma sugestão: já que o coletivo se propôs a revisitar sua história, talvez fosse interessante fazer do próprio documentário uma linha histórica montada através dos relatos dos atores do círculo nesses 10 anos.  De modo que fosse possível acompanhar o percurso – e as crises rsrs – através das pessoas que atravessaram esses momentos com o coletivo.

NOTA #7 [25/03/2020] (RJ I)

Infelizmente eu ainda não consegui ler com mais detalhes as referencias passadas pelo camarada Dennis Yao, sobre O Tempo Lógico de Lacan. No entanto não posso deixar de mencionar nesta nota, no entanto não posso deixar de mencionar o quão curioso foi um dos insight retirado do dilema dos prisioneiros segundo o qual o tempo que um prisioneiro leva para descobrir a cor do disco que está em suas costas, traz para os outros prisioneiros alguma informação que auxilia na resolução do enigma. Ou seja o tempo, mais do que uma questão cronológica, também é capaz informar.

Desculpem a forma apressada com a qual escrevo essa nota, mas cheguei a uma tal situação que simplesmente preciso enviar a nota para que o andamento do trabalho não seja prejudicado.

NOTA #4 [08/04/2020] (RJ I)

O homem, enquanto individuo animal, como os animais de todas as outras espécies, tem, a primeira vista, e tão logo começa a respirar, o sentimento imediato de sua existência individual, mas só adquire a consciência refletida dele mesmo, consciência que constitui propriamente sua personalidade, por meio da inteligência, e conseqüentemente, somente em sociedade. Vossa personalidade mais intima, a consciência que tende de vós mesmo em vosso no foro interior, não é, de certa forma, se não o reflexo da própria imagem, refletida e enviada a vós, como por meio de um conjunto de espelhos, pela consciência tanto coletiva quanto individual de todos os seres humanos que compõe o vosso mundo social. 

Bakunin, M. “Três Conferências Feitas aos Operários do Vale Saint Emier.” In: O Princípio do Estado. Brasília- DF: Novos Tempos. 1989.

NOTA #5 [01/04/2020] (RJ I)

Bakunin, M. “Três Conferências Feitas aos Operários do Vale Saint Emier.” In: O Princípio do Estado. Brasília- DF: Novos Tempos. 1989.

Com efeito, sabemos que é impossível pensar sem palavras; fora ou antes da palavra pode haver sem duvidas representações ou imagens das coisas, mas não existe pensamento. O pensamento nasce e se desenvolve com a palavra. Pensar é, portanto, falar mentalmente consigo mesmo. Mas toda conversação supõe pelo menos duas pessoas, uma sois vós; quem é a outra? É todo o mundo humano que conheceis. 

NOTA #6 [25/03/2020] (RJ I)

O homem, animal mais feroz por excelência, é o mais individualista de todos, mas, ao mesmo tempo, e é uma das suas características distintivas, ele é eminentemente e instintiva e fatalmente socialista. Isto é de tal forma verdadeiro que sua própria inteligência, que a torna tão superior a todos os seres vivos, e que o constitui de certa forma, senhor de todos, só se pode desenvolver e chegara consciência de si mesma, em sociedade,e pelo concurso de toda a coletividade.

Bakunin, M. “Três Conferências Feitas aos Operários do Vale Saint Emier.” In: O Princípio do Estado. Brasília- DF: Novos Tempos. 1989.