NOTA #12 [10/06/2020] (RJ I)

Recordo de que há um tempo em uma reunião o mais-um atual sugeriu por alto uma categoria de membresia em que o membro poderia se manter no CEII sem ter de cumprir as obrigações que confirmam o estatuto de membro (isto é, as notas). Este membro seria uma espécie de companheiro de viagem, que poderia “acessar” o CEII sem participar dele, alguém que estaria no mesmo barco mas sem remar, se compreendi bem e se me lembro direito da sugestão.

Já há um tempo na célula do CEII RJ decidimos que a dívida de quatro notas apenas impossibilitaria a participação do membro na próxima reunião, não mais ensejando o cancelamento da própria reunião. Essa mudança nas regras deu conta de todo o corre-corre pelas notas que havia até então, com a possibilidade de cancelamento da reunião sempre à vista, semana após semana. Por outro lado, na prática, tal mudança efetivou, de certo modo, a sugestão do mais-um mencionada acima, criando uma espécie de nova forma de membresia. Os endividados no limite, que já não participavam das reuniões – e não raro me encontro dentre eles -, tiveram como “punição” aquilo que eles já faziam ou fariam de qualquer jeito, ser vetado de participar da reunião (considerando que haja a verificação da contagem de notas para a participação, o que eu não sei se é o caso).

Longe de querer sugerir uma mudança no que está dando certo, esta nota apenas faz notar que a sugestão do mais-um, embora eu ache que ninguém a tenha levado muito a sério, ao que parece, acabou sendo acatada pelo coletivo. Atualmente o que distingue um membro do CEII é apenas o desejo de estar no CEII, não mais a disciplina e a comprovação material (a nota de trabalho) deste desejo, que outrora constituíram as condições da membresia.

NOTA #3 [08/07/2020] (RJ I)

Antes de se colocar na trincheira contra o inimigo, há que se construir a trincheira, e do lado de cá, olhar para os nossos. A construção da trincheira em vista dos nossos pode ser, inclusive, a melhor arma contra o inimigo, ao descobri-lo pulverizado organicamente numa estrutura plástica. Mais plástica ainda, mais orgânica ainda, atravessada pela igualdade e indiferença, deve ser a trincheira para derrotar o inimigo. Estamos com Marx, sem interesse, sem princípio e sem partido, quanto à conteúdos estanques, somente com interesse, com princípio, com partido da própria trincheira comunista. De um comunismo ácido, afinal, que alucina as estruturas do realismo capitalista abrindo uma fissura para a possibilidade de explodir a nossa trincheira como um subconjunto de forma de vida geral e irrestrita.

NOTA #7 [17/06/2020] (RJ I)

Fiquei pensando sobre duas colocações feitas durante a reunião. A primeira diz respeito à diferença entre ‘nós’ e ‘eles’ e à proposta de que o Ceii se aproxime dos outros, passando a ser um coletivo mais diverso, menos restrito, talvez, a pessoas que integram/integraram os circuitos acadêmicos.

Essa proposta tem como premissa a ideia de que o que está dentro do coletivo seja distinto do que está fora, sendo necessário que se traga ‘o diferente’ para dentro.

No entanto, parece que seria mais interessante uma concepção que embace a distinção ‘nós vs. os outros’, não porque traz o diferente para dentro, mas por tornar o ‘nós’ mais poroso e portanto, cada vez mais parecido com o que está fora. Assim, não se trataria de ‘integrar o diferente’, mas de transformar-se internamente para que conexões sejam feitas a partir das semelhanças, daquilo que se constitui em comum. Passa a ser necessário a manutenção de uma ‘plasticidade’ do coletivo, da constituição de formas de organização que sejam ‘indiferentes à diferença’.

A segunda colocação trata de como podemos pensar a articulação entre ‘responsabilidade’ e ‘complexidade’ em diferentes formas de concepção do mundo/sociedade. Se o liberalismo clássico parece colocar a complexidade acima da responsabilidade e as ideias sobre o socialismo preconizam a responsabilidade sobre a complexidade, parece importante tentar dar um peso forte a ambos os aspectos.

NOTA #2 [08/07/2020] (RJ I)

Queria deixar meu agradecimento ao autor(a) da “nota válida”, pois se eu já achava o mecanismo das notas interessantíssimo, agora também acho divertidíssimo. Além do mais, achei pertinente com o apego à formalização que, como vimos, está presente no CEII desde a sua pré-história.

NOTA #11 [10/06/2020] (RJ I)

Voltando à discussão do Manifesto Comunista, se os comunistas são os sem interesses, sem princípios ou partidos particulares, será que o ceii não assume essa identidade sem identidade bem? Afinal tem sido importante pro ceei essa ideia de não servir pra nada. Os inúteis são os desinteressados, os sem pressa são os sem princípios, os do Círculo são os sem Partido (particular). Será que a inutilidade do ceii faz dele ainda mais comunista?

NOTA #15 [03/06/2020] (RJ I)

Na última reunião surgiu o comentário de um membro muito inteligente: o novo CEII-app é uma tecnologia social inovadora! A única tecnologia social do comunismo tem sido o cooperativismo, e isso é o quão revolucionário esse app é.
Mas e se levarmos essa ideia já maravilhosa para além de si mesma? Será que o CEII inteiro não é uma tecnologia social? Um mediador entre objetivos e suas concretizações? Talvez mais especificamente o CEII seja uma técnica de produzir técnicas, uma organização que constrói um espaço comum para produzir outras organizações, outras ações (o que remete a outra figura do CEII como incubadora de projetos, e ‘se fecha o Círculo’).

NOTA #1 [08/07/2020] (RJ I)

Era um vez eu revendo anotações antigas, daí encontrei umas notas sobre o livro Passos para um Ecologia da Mente, do Gregório Bateson. Ele tem uma teoria do aprendizado em níveis hierárquicos em que ele chama de L0 um mecanismo comum de escolhas seletivas, sem mudanças (como um algoritmo simples que se mantém constante). No L1, temos aprendizado por tentativa e erro, com correções das expectativas erradas pela alteração do procedimento. Aqui há aprendizado. Ele ainda chega a caracterizar um L2 (um aprender a aprender que faz tanto sucesso em discursos sobre capacidades cognitivas a serem atingidas na escola; quando vc altera a velocidade ou modo de aprendizagem) e um L3(quase como uma conversão religiosa, uma transformação das próprias estruturas subjetivas; um exemplo com que ele trabalha é do despertar de uma ‘consciência ecológica’ ou das transformações em alcoólatras no AAA).
Mas qual a relação disso com o CEII? Ele sugere por fim um L4 e sugere uma estrutura ‘externa’ aos indivíduos que poderia modificar esses modos de aprendizado. E eu fiquei pensando: será que a estrutura CEII-membros pode ser comparada com esse mecanismo? Como organização ela medeia as possibilidades de aprendizado dos membros. Forma-se uma estrutura impessoal (ou transpessoal?)com capacidade de ampliar os repertórios de detecção de estímulos relevantes e de produção de respostas dos membros. Quase como uma (in)consciência coletiva, o CEII modula acessos a ideias e ideologias pelos membros, ao mesmo tempo que estes, inseridos nesse macrossistema, reescrevem os ‘códigos abertos’ do coletivo, reinserindo seus pensamentos, ações, materiais com que entram em contato através de notas, reuniões, formação de novos subconjuntos etc etc. Uma organização aprendente, um sistema pensante, uma mente no sentido ecológico proposto por Bateson. Talvez seja isso o CEII.

NOTA #5 [24/06/2020] (RJ I)

Como sou um membro novo e estou me familiarizando com a dinâmica do CEII, talvez valha a pena eu compartilhar uma experiência pessoal: entrei na UFES (Universidade Federal do Espirito Santo) em 2015 no curso de ciências sociais. Desde o 1ºperíodo me sentia pressionado a entrar em alguma corrente do movimento estudantil. Sentia como se só fosse possível fazer amizades participando desses espaços, no entanto, não me identificava com nenhuma das correntes existentes, desconfiava de todos, sentia que não tinha o conhecimento teórico necessário sobre política para me filiar a algo e tinha medo de ser manipulado pelos outros. Mas talvez o motivo principal para eu não ter me filiado a nada tenha sido mesmo meu fracasso em estabelecer um laço afetivo com as pessoas e com as ideias do cenário político da minha universidade.
Anos mais tarde ouvi falar do CEII em um evento acadêmico que o Gabriel Tupinambá esteve presente aqui no meu estado. Desde então acompanho de longe o coletivo e me mais recentemente acabei me identificando com o rolê. O irônico do negócio é que o CEII, de acordo com a proposta de funcionamento do círculo, não visa uma unidade pela identidade de seus membros – seja pessoal, seja ideológica – , muito menos uma suposta unidade baseada somente na diferença e na diversidade: a proposta é unir a partir de princípios organizacionais comuns.
Daí uma grande diferença com relação aos coletivos do movimento estudantil que eu conheço: a facilidade de se entrar. Em minhas tentativas de conversar com colegas do ME, pedia que eles me explicassem para que servia o Centro Academico, o DCE, porque existia um racha tão grande entre as correntes se todo mundo ali defendia basicamente a mesma coisa, etc. Curiosamente era muito difícil marcar um encontro pra conversar sobre esse tipo de coisa e, quando conseguia, as explicações não eram muito satisfatórias. Tinha a impressão de que muita gente embarcava numa onda sem saber exatamente o que se queria. Mas, em contrapartida, era muito fácil conversar com alguém para participar de uma chapa de DCE. Na real, não era precisa nenhuma conversa. Bastava comunicar a alguém o interesse e mandar fotos do RG e da carteirinha.
Já ao responder o formulário do CEII, senti como se fosse uma candidatura a estágio, mas, lembrei que se tratava apenas de um protocolo básico, que aquilo não era muito sério. E apesar de vocês deixarem claro no documento das “Invariantes” que vocês lêem e discutem cada formulário, eu duvidei que isso realmente acontecia. Acabei entrando e logo no primeiro contato com o grupo do face e já nas primeiras reuniões vi o quanto vocês levam a sério esses formulários e esse exercício de constante auto-reflexão do grupo.
Tendo em vista esse relato, o CEII apareceu para mim como uma espécie de refúgio, onde eu poderia participar de um coletivo político, que age e intervém na realidade, ao mesmo tempo me libertando de uma certa coerção social que me pede a todo tempo para demonstrar ação. (Agora se alguém vier me encher o saco perguntando se eu participo de alguma organização política posso dizer que sim, participo.)
Desconfio que não é assim que o CEII gostaria de ser visto, como um “refúgio”, mas acredito que a contradição que se expressa no meu caso possa servir para algum tipo de reflexão: um coletivo que não pretende unir pela identidade, mas que justamente por isso acaba agregando um ou outro membro por ela.

PS.: essa nota foi uma espécie de desabafo e tem um tom muito particular. Prometo que nas próximas eu vou me esforçar para eliminar esse tom pessoal e direcionar minhas reflexões para temas de maior interesse. Mas eu gostaria sim de ressaltar que a fantasia de participar de um coletivo em que eu não me sinta mais só foi muito importante para eu buscar o CEII.