NOTA #4 [05/08/2020] (RJ)

Das várias coisas bacanas de “O feminismo é para todo mundo”, da bell hooks (em especial a maneira como ela aborda a conexão entre raça/classe/gênero e as profundas desigualdades entre as condições de reprodução social das trabalhadores do Norte e do Sul globais), queria destacar uma outra coisa que me chamou bastante a atenção. Tá lá no capítulo 2, quando ela discorre sobre um tipo de organização que surgiu no “início do movimento feminista contemporâneo”: os grupos de conscientização (GC’s). Curiosamente, esses grupos não eram voltados para conscientização externa ao grupo – ou seja, não era uma parada “vamo se juntar aqui para levar essa consciência para quem tá fora do nosso grupo”. Não, o grupo era voltado fundamentalmente para as mulheres do próprio grupo. Nesse sentido, era uma organização cujo principal objetivo era a própria organização das mulheres, que “simplesmente liberavam a hostilidade e a ira por serem vitimizadas, com pouco ou nenhum foco em estratégias de intervenção e transformação”. Ou seja, havia uma espécie de indistinção entre quem tá fora e quem tá dentro da organização, assim como os problemas de “fora” e os problemas de “dentro” da organização. Os grupos de conscientização tinham esse nome porque a conscientização não era vista como um problema que tá apenas no mundo, fora da organização – os problemas do mundo também são problemas da própria organização. O que muda é i) a maneira como esses problemas aparecerão ali e ii) as formas pelas quais eles serão formulados nos próprios termos da organização. “Somente com discussão e desacordos poderíamos começar a encontrar um ponto de vista realista sobre exploração e opressão de gênero”. Esse formato de organização me interessa bastante. Tem muita coisa boa aí pra pensar.

Um adendo: se minha memória não tá vacilando comigo, a bell hooks inclusive fala que quando esses grupos de conscientização passaram a ser enfraquecidos, todo o movimento feminista contemporâneo foi degringolando.