NOTA #3 [23/09/2020] (RJ)

Olá amigos, continuo com saudades de frequentar as reuniões.
Consegui acompanhar a primeira parte da última reunião (enquanto fazia o almoço), onde foi feita uma leitura do Mestre Ignorante.
Foi revigorante revisitar esta ideia de uma igualdade que se baseada na condição do ignorante, ela se distancia da ideia liberal do homem definido pela racionalidade tipicamente burguesa sem se afastar da ideia de homem produzida no marxismo segundo a qual este não se diferencia dos outros seres por seu caráter racional mas sim por sua capacidade de produzir o meio em que vive a partir do trabalho.

um abraço a todos vocês meus queridos.

NOTA #2 [23/09/2020] (RJ)

Frequentemente me vejo pensando numa frase do Foucault tão importante quanto problemática: “Não se apaixonem pelo poder”. Por um lado, traz a questão fundamental dos condicionantes libidinais da autoridade política (o que nos evoca Freud, em Psicologia das Massas); mas, por outro, parece esquecer justamente dessa determinação libidinal em toda vontade de governar e ser governado. Como não se apaixonar pelo poder se o poder efetivamente posto continua produzindo (conscientemente, talvez possamos afirmar) efeitos de enamoramento nos sujeitos políticos? É realmente da ordem de um voluntarismo? “- Não se apaixone pelo poder! – Ah, ok, muito que bem, obrigado pela dica, vou tomar mais cuidado com minhas pulsões de agora em diante”. Isso só reforça, para mim, como a esquerda liberal, que se ancora com unhas e dentes na micropolítica como horizonte de luta, não faz ideia do que se passa em nossa época. Essa ojeriza higienista a tudo que seja da ordem do poder parece ser um tremendo tiro no pé, mas mesmo assim continua a ser afirmada e reafirmada nos meios universitários.

NOTA #6 [19/08/2020] (RJ)

[justify]Gostaria de externar algumas impressões sobre algumas formas do pensamento marxista que tenho visto ultimamente. Costuma me provocar estranheza e certa preocupação a leitura epistemologizante de alguns marxistas. Não sei se é algum althusserianismo (vulgar, no caso), mas me parece que ver em Marx algo como um “corte epistemológico” (Bachelard) leva a uma leitura um tanto estática.
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A primeira questão que gostaria de trazer é a seguinte: será que não há nada a ser extraído, em termos de conhecimento, da práxis? Será que esse conceito pode ser descartado/separado do marxismo? Não pretendo fazer apologia nenhuma a essa ideia pós-moderna e antropologicista de “vivência”, mas não seria o conhecimento da realidade propriamente social, humana, marcado pela ação na realidade?
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Como afirma um teórico que pessoalmente gosto muito, Karel Kosik: “A razão dialética não existe fora da realidade e tampouco concebe a realidade fora de si mesma. Ela existe somente enquanto realiza a própria razoabilidade, isto é, ela se cria como razão dialética só enquanto e na medida em que cria uma realidade razoável no processo histórico”. Isso é diferente de afirmar qualquer praticismo vulgar:
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“A práxis na sua essência e universalidade é a revelação do segredo do homem como ser ontocriativo, como ser que cria a realidade (humano-social) e que, portanto, compreende a realidade (humana e não-humana, a realidade na sua totalidade). A práxis do homem não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade.
A filosofia materialista não pode, por isso, aceitar a ontologia dualista que distingue de modo radical entre a natureza como identidade e a história como dialética. Tal ontologia dualista só seria legítima se a filosofia da realidade humana fosse concebida como antropologia.”
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Trouxe essa questão porque quando entrei na militância, tive algo como uma epifania, sem data específica (talvez quando li Lênin pela primeira vez), mas que me fez compreender que há algo a ser aprendido da atividade prática que não é contemplação e nem “vivência”. Um compromisso junto aos explorados que coloca a perspectiva de classe como crivo de análise e a realidade socialmente reproduzida antes da formulação teórica, ou melhor, buscar sempre “a viagem de volta” pra totalidade concreta.
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Menciono tudo isso porque tem sido frequente ler comentadores que não percebem ou não pesam a dimensão marxista de diversos autores, muitas vezes por não serem eles mesmos organizados junto às lutas sociais. Li recentemente algo que assino embaixo: “Desta forma, mesmo quando esse referencial teórico é mencionado, isso normalmente se dá como uma mera ‘pontuação’: o reconhecimento de uma ‘influência’, sem que o modo como essa base opera conceitualmente seja reconhecido ou explicitado.”
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Isso deve, claro, à derrota histórica da classe trabalhadora, que junto com o muro caindo pro lado errado, cai também sua sustentação teórica, isto é, cai a realidade de sua teoria. A pergunta que deixo aos camaradas ceiianos é: é possível conciliar esse dado histórico com a proposta de base do CEII, isto é, seu formalismo, com isso que é um certo reconhecimento das limitações de toda forma.
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Como alguém que entrou “no tempo errado” no CEII, me vejo na organização como um pequeno elemento de tensão, que é bastante interessante por poder observar os afetos que toda experiência do tipo gera, mas que me mantém questões sobre meu pertencimento à organização, sobre os frequentes afastamentos e reaproximações de seus membros, esse curioso modo de funcionamento do CEII que ao não servir pra nada, fornece algum tipo de lugar pra existência, ainda que no antagonismo.
Talvez, ele forneça pelo próprio antagonismo. Pelos antagonismos interiores, isto é, uma unidade entre o antagonismo com a organização e o interno que acaba criando a unidade consigo porque reconhece os próprios impasses e impulsos dentro de certa racionalidade, de certo projeto, de certo movimento:
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“Se, historicamente, a lista de excluídos vai diminuindo em função da tomada de consciência de seu papel como bode expiatório de uma sociedade ou de uma classe, o único excluído que no atual momento histórico não está em condições de se conscientizar (…) é o doente mental (…). Tudo o que ele sabe de si mesmo e do seu estado mórbido limita-se ao papel que a sociedade e a psiquiatria lhe atribuíram, e portanto acha que todo ato de contestação à realidade brutal que vive e que recusa é apenas um ato doente que sempre o reconduz a si mesmo, sem nunca libertá-lo das forças que o dominam (p.38).”
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Seria o CEII ou qualquer organização, capaz de passar desse plano do antagonismo formal e conscientemente reconhecido pra sua efetivação na realidade através da violência revolucionária, isto é, pela mudança na realidade como produto final do reconhecimento, porque somos também essa realidade, somos também objetivados nela e por isso reais.
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NOTA #1 [23/09/2020] (RJ)

Em tempos de espectativas decrescentes, fazer circular a sensibilidade me parece ser um exercício político de extrema importância em que se recorre à mais desimportante das atividades humanas, algo como recorrer ao desnecessário para confrontar a necessidade. Quando, no âmbito das artes, p. ex., encontramos as mais absurdas construções narrativas há, na verdade, um convite sob a forma de abismo, um chamamento para abraçar a impossibilidade enquanto tal, porque talvez essa forma-vazia seja a única coisa que ainda sustenta a possibilidade de novas formas latentes na força da imaginação política.

NOTA #1 [16/09/2020] (RJ)

No subgrupo de Frantz Fanon, em que estamos lendo “Pele negra, Máscaras Brancas”, logo no início, Fanon escreve: “em direção a um novo humanismo”. Pegando outro autor, o Zizek, a partir de seu texto “O inumano”, vemos como pensar esse negativo do humano talvez seja necessário para observar o que o humanismo tradicionalmente recalcou. Nesse sentido, me pergunto: em que ponto se encontram o inumano e o “novo humanismo” de que fala Fanon? Antes disso: será que se encontram? E se não, como tensionar esses conceitos? No interior da já conhecida controvérsia entre marxismo estruturalista e marxismo humanista, talvez essa reflexão indique algo interessante para além de certos impasses.

NOTA #18 [03/06/2020] (RJ)

Em uma reunião se comentou sobre uma discussão no CEII nos idos de 2013. Uma oposição que apareceu entre a ideia de Gramsci de um intelectual orgânico, algo como um pensamento produzido a partir das ruas; e uma posição mais à la Lenin, de uma separação entre um ‘pensamento espontâneo’ e um pensamento mais de segunda ordem, tarefa de uma vanguarda intelectual. O partido precisa ser mediador para que a ‘rua’ produza seu pensamento? O que acham os ceiianos dessa oposição de Pensamento Orgânico vs Pensamento da Vanguarda?

NOTA #11 [24/06/2020] (RJ)

“a Forma não é uma moldura neutra de conteúdo particularidades, mas o próprio princípio de concreção, ou seja, o estranho atraente” que distorce, preconcebe, confere uma cor específica a cada elemento da totalidade”

Partindo da premissa que Zizek fórmula para pensar a organização partido podemos interpretar o desejo do CEII enquanto organização?

NOTA #5 [22/07/2020] (RJ)

Me foi apontada a necessidade de uma intervenção Oniropolítica. Não foi num sonho profético que essa mensagem me apareceu, mas numa operação de diálogo com um outro membro. A matéria de que são feitos os sonhos é mais plástica, bem mais maleável, contudo nem por isso deixam eles de atingir a concretude. Nos afetam e deixam marcas. Sonhar, mesmo acordado, é uma contínua operação anamórfica. Tudo que tem forma é de-formável. E sonhando com as formas, elas se deformam. Produzindo uma poética da abstração que adultere as formas dadas, que distorça as perspectivas naturalizadas como ‘a realidade’. Ter a deturpação como modo de produzir novas perspectivas, sonhando com outro real e realizando sonhos surreais. Eu sonhei que estava dentro de um círculo. Na areia, marcas de passos em um grande espaço delimitado. Vaguei adicionando passos e perguntei sobre o limite daquele espaço geométrico. Me disseram que era permeável. E que eu podia aumentá-lo se quisesse. Só bastava vontade. E o engajamento de outros no interior do espaço. Eu acordei e não anotei o sonho. Então o esqueci e precisei reinventá-lo. Deturpei o sonho pra fazer política. Oniropolítica das Anamorfoses.

NOTA #2 [09/09/2020] (RJ)

Tô meio atolado no meu doutorado e, com isso, já tem umas semanas que não participo ativamente das reuniões, ficando sempre com aquela participação passiva marota de ouvir as reuniões depois no Spotify e escrever uma nota. Bom, tô falando isso porque, apesar de certa insatisfação comigo mesmo (aquele velho circuito neurótico chato), fico feliz ao perceber que graças à estrutura bastante peculiar do CEII, capaz de assimilar a “passividade”, sinto que consigo participar de alguma forma das reuniões. A possibilidade aberta pelo CEII de ser quase insignificante, mas ainda assim participar e gerar algum tipo de discussão (mesmo que ínfima), parece ser algo muito original.