Nota #1 [02/12/2014] (RJ-I)

TRABALHO FUNCIONAL E PRÁXIS

1. 11a tese de Feuerbach

Essa famosa tese não funciona apensa como um chamado à ação, mas a unidade da teoria e da prática, à praxis. A práxis, portanto, nomeia uma atividade onde tanto a prática quanto a teoria estariam em jogo. O desvio teoricista da práxis é chamado de dogmatismo (ex: crítica à Lenin como alguém que tinha a teoria como o que orienta a prática) – é considerada um desvio por re-introduzir a divisão do trabalho, sob domínio do trabalho intelectual. O desvio mecanicista da práxis, reduzindo a teoria ao segundo plano é chamado de “espontaneísmo” (ou mesmo de oportunismo).

2. Conceito filosófico de práxis

O Marxismo tomou de empréstimo da filosofia o conceito de práxis – o que não ficou claro com esse empréstimo foi a limitação de uma certa matriz de possibilidades que foi igualmente importada, uma limitação quanto às possibilidades de relação entre prática e teoria. O conceito marxista de práxis é indiscernível daquele de trabalho funcional, trabalho regido por uma função específica. A matriz aqui é a noção de trabalho vinda do pensamento filosófico, para quem o trabalho é sempre funcional.

O trabalho funcional é definido da seguinte maneira: trata-se de uma transformação dirigida de um estado de coisas levada a cabo por um agente ou por uma pluralidade de agentes de maneira organizada de acordo com um saber a fim de produzir um fim pré-concebido. Essa matriz oferece duas formas principais para descrever essa finalidade: de acordo com a função teleológica – isso é com o propósito imediato – ou de acordo com a função operacional – isso é, com o papel daquela ação num processo mais geral de transformação. Há uma dialética das funções operacionais e teleológicas, pois uma pode ser tomada pela outra, e uma, no fundo, depende da outra. Além do mais, é preciso considerar a escala da análise – micro ou macro – para de fato levarmos em conta o valor operacional ou teleológico de um dado trabalho funcional.

Outra opção importante na matriz do trabalho funcional é aquela que traz a tona o papel específico da prática. No nível micro, trata-se da resolução de problemas, no nível macro, da adaptação sistemêmica a um ambiente.

Vemos, assim, que o trabalho funcional nos lega todos os termos com os quais costumamos pensar o problema da práxis: trabalho, saber ou teoria, telos/operação, parte/todo, agência, necessidade, realidade.

3. Limites do trabalho revolucionário funcional

A concepção de práxis revolucionária normalmente associada a Lenin é justamente a de trabalho funcional: seu propósito é a revolução proletária, seu papel na dialética da História é trazer ao fim a época capitalista. Trata-se de uma prática organizada – seguindo a linha do Partido – e de acordo com um saber – a teoria Marxista. Ela tem também um agente – o Partido e sua vanguarda, e o proletariado como agente da história.

Existem dois problemas importantes na teoria da práxis como trabalho funcional.

Primeiro, se tomamos a teoria como dominante na unidade com a prática, então é impossível distinguir o trabalho revolucionário do trabalho técnico de tantas profissões que submetem suas práticas a um saber teórico, no qual baseiam suas técnicas. Se tomamos a prática como termo dominante, então nada distingue a práxis da prática das corporações, por exemplo, que incessantemente se adaptam à situação e às pressões externas para continuar sobrevivendo. Tanto a crítica da práxis que tornou-se doutrinária quanto a crítica da práxis que se tornou oportunista não fazem mais do que encontrar os limites já prescritos do seu próprio conceito filosófico de práxis. Segundo, o problema do direcionamento é também central. A práxis tem um autor, no sentido clássico do termo, seu autor é a história, tal como governada pelas leis da dialética e, como autora, a história dá à prática sua direção e sentido. A conexão desses dois problemas leva ao problema da autoridade sobre a praxis e da necessidade de reproduzir, dentro da práxis, uma certa relação assimétrica, de dominação de um pólo da unidade sobre o outro, relação assimétrica que acaba por se institucionalizar, seja como centralismo dogmático, seja como oportunismo, dependendo de qual pólo posicionar-se como “receptor” do direcionamento legado pela história como autora da práxis.

Em última instância, os limites da matriz da práxis são os limites da ontologia clássica.

4. A tarefa

Distinguir práxis de trabalho funcional. Trata-se de uma tarefa com quatro etapas:

  1. A práxis precisa ser subtraída de uma totalidade que lhe daria direção e sentido. Precisa ser uma teoria do trabalho sem garantia ou fundamento.
  2. A práxis não pode ter um agente privilegiado. A identidade dos atores não pode ser sabida antes da concretude da práxis.
  3. A práxis precisa ser subtraída de qualquer saber pré-estabelecido, doutrina ou conjunto de leis. Trata-se de uma práxis que não é a aplicação de uma lei.
  4. A práxis precisa ser subtraída de qualquer espécie de objetivo pensado como uma finalidade, com Bem, ou como realização de um papel. Isso não significa que se trata, portanto, de um trabalho “disfuncional”, mas sim de um trabalho “a-funcional”.

Resumo das primeiras páginas de Feltram, O. As Fire Burns, 2002 PHD Deaking University

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *