Nota #1 [04/06/2013]

“A realidade é para quem não consegue suportar o sonho”

Em sua análise dos AIE, Althusser negligencia um aspecto fundamental da inteperlação simbólica. O fato de que ela não ocorre sem deixar um resto, uma mancha de irracionalidade absurda que é vivenciada como uma injunção traumática. Essa mancha, contrariamente ao que poderíamos supor, não é um obstáculo, mas uma condição de possibilidade da plena submissão do sujeito à ordem ideológica. Ela confere à lei sua autoridade incondicional e sustenta o jouis-sens (gozo do sentido ou fruisenso) próprio da ideologia.

Distinto de Althusser, o sujeito kafkiano não entende o sentido do chamamento do Outro. Ele passa o romance inteiro buscando a resposta a essa pergunta: o que sou para este Outro, resposta que só poderá ser obtida ao nível da fantasia.

Para Lacan, fantasia não se opõe à realidade, mas é o meio através do qual constituímos a realidade ela própria. No seminário 11, ele exemplifica isso com o caso do pai que desperta de seu sonho ao se deparar com o real de sua culpa perante a morte do filho. Do mesmo modo, comenta Zizek, “A função da ideologia não é oferecer-nos uma via de escape de nossa realidade, mas oferecer-nos a própria realidade social como uma fuga de algum núcleo real traumático.

Contrariamente ao que supunha Althusser, o sujeito não se limita a acatar alguns mandatos simbólicos oferecidos pelo Outro. Subjacente a isso, ele encontra algum esteio para o seu ser através do objeto da fantasia.

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