NOTA #1 [13/05/2020] (RJ I)

Sobre Gênero e a Identidade de Esquerda: será que o CEII e a ‘política da indiferença’ não dão conta de uma política da diferença? Se imaginarmos que a questão que atravessou o debate político nos últimos dez anos e reconfigurou seu espaço de possibilidades foi uma de ‘política da identidade/diferença’, como se situaria o CEII (anônimo e indiferente) nesse cenário? Talvez seja possível relacionar tanto a queda de interesse no CEII em dado período como a redução da participação feminina a esse processo maior. Quando as manifestações e grupos feministas (e/ou antirracistas e/ou descoloniais) se proliferam e a nova onda feminista (dos 99%, como gostariam a Fraser, Arruzza e Bhattacharya) se torna um fenômeno global maior que qq esquerda, qual é o sentido de buscar uma organização comunista aparentemente indiferente à diferença que é ser mulher no meio do “heteropatriarcado-colonial-capitalista”? (pra juntar alguns dos muitos possíveis predicados em voga para caracterizar as estruturas de exploração/opressão contemporâneas). Talvez sejamos todos iguais em nossa condição de explorados/oprimidos, mas parece razoável dizer que uns (ou umas) são mais que outrxs…
Lendo essa semana um texto sobre a Política pós-junho e a relação entre classe e diferença na esquerda, voltei a pensar nessas questões. Segue um trechinho:”pensar […] as tensões, confluências e conexões entre classe e diferença. No Brasil, em outros contextos, parte da esquerda tentava opor classe e diferença e isso está muito preso no debate político nacional. O que, a meu ver, nos ajuda a pensar é o seguinte: a classe sempre foi preta, a classe sempre foi mulher, a classe sempre foi indígena. ”  ” Alguns sentidos de Junho que se destacam: a questão da participação contra a representação, a questão da corrupção, uma rebelião contra o inadequado uso do dinheiro público, especialmente por conta dos gastos feitos para a Copa, a questão da violência policial e a pauta de uma nova subjetividade indígena, negra, feminista, LGBTQI. ” –> Nesse contexto, Tible considera que apenas o PSOL com Boulos e Sonia Guajajara tinham uma pauta que realmente considerava esse diálogo com as mudanças de junho (Bolsonaro seria um anti-junho e o PT em menor grau e principalmente o PDT apresentariam pautas, talvez, pré-junho; o PCdoB, com Manuela D’Ávila seria um exemplo de alguma mudança tbm). — Essa digressão toda para levar a um questionamento simples: não seria o afastamento do CEII em relação ao PSOL análogo à separação em relação a uma jovem esquerda que cada vez mais fortemente se manifesta pelas pautas das ‘novas subjetividades’? Seria o caso de pensarmos uma polarização entre: 1. ser ‘organizacional- ou formalmente’ de esquerda (a proposta do CEII em certa medida); e 2. ser ‘identitária- ou subjetivamente’ de esquerda (a modalidade que em seu extremo alimentaria a ultrapolítica de que falava a Sabrina Fernandes)?Nesse sentido, não me parece que deveríamos optar entre uma ou outra, mas talvez buscar entender esse processo de afastamento e pensar como reinventar fórmulas organizacionais que deem conta da questão da subjetividade e da diferença: faz sentido criar células ou subgrupos que pensem essa questão? faz sentido reincorporar a diferença como parâmetro no ‘cálculo da indiferença formal’ no CEII em geral? faz sentido nos debruçarmos coletivamente sobre a relação organização/subjetividade e experimentar com formas de organizar ‘diferentes’ para ‘dar conta das diferenças’?Joguei umas ideias, não tenho respostas, não…https://autonomialiteraria.com.br/jean-tible-a-esquerda-se-divide-em-dois-polos-quem-celebra-e-quem-detesta-junho/
PS: esse Jean Tible escreveu recentemente um livrinho que se torna mais interessante ainda hj pela presciência do nome dessa série de publicações pela N-1 (série Pandemia, de 2019 kkk). Seguem título e um link para quem interessar possa: marx indígena, preto, feminista, operário, camponês, cigano, palestino, trans. selvagem

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