NOTA #1 [15/07/2020] (RJ I)

É uma questão que me interessa muito a de pensar a ideologia e o ponto de vista a partir do qual se pode fazer uma crítica da ideologia. Será que, apesar das críticas que ela sofreu ao longo do século XX, a ciência ainda pode ser o lugar dessa crítica? Parece ser assim para Marx, à primeira vista. “À primeira vista”, porque talvez seja o caso de dar bastante atenção ao fato de que, se ele reivindica que o que ele faz essa ciência, por outro lado já está presente nele o ponto de vista segundo o qual a ciência também pode “padecer de” ideologia. Essa é uma das razões pelas quais, a rigor, ele não faz economia política, mas uma crítica da economia política.

Daí talvez uma ideia, que não sei se ajuda, de diferenciar neutralidade de parcialidade. O problema da ideologia não seria que ela não é neutra e que precisaríamos de um ponto de vista neutro para criticá-la; o problema, ou um dos problemas, é que ela seria parcial e que, portanto, precisaríamos de um ponto de vista da totalidade para fazer a crítica dela. Esse ponto de vista, por outro lado, pode ser gerado, e talvez só seja gerado, por meio de uma crítica ideológica — isto é, apontando os limites (fazendo a crítica, portanto) dos demais discursos e práticas. Não é que se teria uma totalidade prévia, mas que essa totalidade vem a ser através da crítica ideológica, e talvez seja sempre aberta, porque se há um outro discurso ou prática que aponte a lacuna do anterior (a sua parcialidade), esse se mostra ideológico etc.

Mas com isso só se aborda um lado, a totalidade. O outro seria a não neutralidade. Daí que a crítica da ideologia procuraria ser imparcial, mas não neutra, no sentido de que, no interior do todo, há certos posições nas quais o todo pode ser melhor “enxergado”. E a tese do Marx (e do Zizek, e do Badiou) seria que esse ponto de vista é o do proletariado, ou dos excluídos em geral, justamente porque eles ocupariam esse espaço limítrofe entre o “sistema” e seu fora (tanto por estarem excluídos, quanto por, nisso, conterem em si o germe de outro futuro, no qual essa totalidade estaria superada na prática).

Nesse sentido, não haveria uma simetria entre posições que levaria ao ceticismo ou algo do tipo (pós-modernidade ou sei lá o quê). Me parece que esse ceticismo só vale se aceitamos um pressuposto democrático-liberal de igualdade de posições. Aliás, se já na democracia liberal vale a ideia de que qualquer um pode governar, se há essa igualdade de fundo, ideia essa que valeria para a democracia em geral, então mesmo aí nem todas as posições seriam em princípio válidas — não o seriam, por ex., as posições fascistas que vão contra esse próprio princípio.

Não sei se está hegeliana demais (segundo uma interpretação de Hegel, ao menos) essa estrutura de superação da totalidade anterior por uma totalidade mais abrangente, de modo que a primeira aparece como parcial, ideológica, a partir da crítica da seguinte. Não sei também se talvez seja melhor formular isso não como passagem de uma totalidade que se mostra como parcial diante de outra mais abrangente, mas de diferentes totalidades/totalizações igualmente infinitas, mas com cardinalidades diversas, ao modo lá dos mundos do Badiou, talvez.

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