NOTA #13 [10/06/2020] (RJ I)

Uma cena de The Handmaid’s Tale faz alusão à passagem bíblica em que Raquel e Jacó lidam com a frustração de ainda não terem gerado filhos.

A passagem lembrou Simone que uma vizinha de infância de sua família era motivo de piada na sua casa por cantar uma música da cantora gospel Fernanda Brum, cujos versos (originalmente bíblicos) eram “dá-me filhos, se não morro”. A graça era que a vizinha já tinha onze filhos. Hoje, tudo é mais engraçado se consideramos que o deboche vinha de uma casa com sete crianças.

A lembrança da Simone nos levou a um DVD ao vivo que a cantora gravou há mais de dez anos atrás. O show começa com uma espécie de discurso sobre a “geração de João Batista”, que “clama que o povo se arrependa”, “geração que não tem sua vida por preciosa”. Evidente que compartilho (cada vez mais) do horror espontâneo que qualquer pessoa com juízo no Brasil deveria sentir a respeito da influência evangélica na política, mas, apesar de soar sinistro, o tal discurso me causa uma admiração.

Já dividi outras vezes com o grupo a sensação de que o único discurso disruptivo (realmente existente) que restou está com os crentes. Disruptivo no sentido de ser discurso que sustenta uma desconfiança sobre a noção de indivíduo, quando todos os demais, e em qualquer esfera da vida social, o tratam como o mais precioso dos recursos.

O efeito político disruptivo desse discurso consiste em trabalhar ideologicamente uma área em que a ideia de transformação social perdeu lugar (e, de fato, não há mais lugar). E, quando tudo parece indicar uma espécie de saturação da experiência subjetiva atual (do tédio à depressão acho que se trata disso), é este discurso crente que entrevê que o indivíduo já não é mais suficiente para uma boa vida.

Talvez, a adesão popular ao “crentismo” decorra do sentimento de que essa cultura dominante lhes faz mal pessoalmente, apesar de prometer o bem.

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