NOTA #2 [18/11/2014] (SP)

Um problema crucial na compreensão de uma crítica à ideologia compreendida enquanto fantasia social refere-se a como se estrutura a relação dos sujeitos com a rede simbólica. O conceito de fetichismo de mercadoria, em Marx, significa que relações entre sujeitos e objetos é marcada por uma autonomia ideológica, no sentido de que aparelhos ideológicos possibilitam que relações entres pessoas sejam transformadas em relações entre coisas. Desse modo, há ai uma cisão entre pessoas e coisas.

A pontuação de Žižek é que se por um lado há a possibilidade de uma crítica anti-humanista, por parte de Althusser fundamentalmente, no sentido de um lugar privilegiado a uma dimensão do que seria o humano, uma leitura lacaniana reanima essa concepção marxista, pois as coisas se acreditam enquanto lugar de sujeito. Desse modo, as coisas acreditam pelos sujeitos.

A crença, portanto, não diz respeito a uma interioridade psicológica repleta de intenções e desejos, mas enquanto objetividade. Desse modo, não está no saber, mas no próprio fazer.Para zizek, algumas crenças só operam quando há uma certa distância do crente em relação a crença. Para que ela funcione, tem de haver algo ou alguém que acredite pela pessoa, um fiador, mas sempre deslocado.

Desse modo,a crença pode operar enquanto negação fetichista em funcionamento na ideologia. Desse modo, no funcionamento religioso, não é mais fundamentalmente necessário que eu acredite realmente, mas que por esse modo de comportamento já estar inscrito na cultura, então me comporto como se acreditasse. Desse modo, a operação na cultura seria justamente algo que se pratica sem realmente acreditar no que se está realizando. A virada realizada em relação a Pascal está justamente ai:  “Ajoelha-te, reza, age como se acreditasses- e a crença virá por si só”. No entanto, a lógica contemporânea é: “Você acredita demais, diretamente demais? Então se ajoelhe, aja como se acreditasse, e ficará livre da sua crença”. O sujeito, na relação íntima consigo, não precisa acreditar, pois a crença acredita por ele. Desse modo, delego a outrem a relação aos desejos íntimos, sem que seja necessário que haja mobilização de estados que íntimos. Desse modo, o axioma de Lacan “a realidade tem estrutura de ficção” demonstra que no próprio ato de encenação, de construção de uma realidade fantasiosa, é ai que operação o simbólico, pois “aqueles que não se deixam apanhar na ficção simbólica, são os que se enganam” segundo Žižek . O cínico, então, é esse que se atem a uma realidade que opera enquanto o que ele enxerga.

 

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