NOTA #2 [23/09/2020] (RJ)

Frequentemente me vejo pensando numa frase do Foucault tão importante quanto problemática: “Não se apaixonem pelo poder”. Por um lado, traz a questão fundamental dos condicionantes libidinais da autoridade política (o que nos evoca Freud, em Psicologia das Massas); mas, por outro, parece esquecer justamente dessa determinação libidinal em toda vontade de governar e ser governado. Como não se apaixonar pelo poder se o poder efetivamente posto continua produzindo (conscientemente, talvez possamos afirmar) efeitos de enamoramento nos sujeitos políticos? É realmente da ordem de um voluntarismo? “- Não se apaixone pelo poder! – Ah, ok, muito que bem, obrigado pela dica, vou tomar mais cuidado com minhas pulsões de agora em diante”. Isso só reforça, para mim, como a esquerda liberal, que se ancora com unhas e dentes na micropolítica como horizonte de luta, não faz ideia do que se passa em nossa época. Essa ojeriza higienista a tudo que seja da ordem do poder parece ser um tremendo tiro no pé, mas mesmo assim continua a ser afirmada e reafirmada nos meios universitários.

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