NOTA #3 [18/11/2014] (RJ I)

223. A ideia de comunismo e o comunismo da ideia. Tomo a liberdade de usar essa nota para esboçar, de maneira bem simplória e inicial, a ideia de um projeto de pesquisa para o que – se não entendi mal (à luz da reunião do dia 11.11.14) o gráfico da reunião a que  – serão os subconjuntos de prática teórica (ou o que pode vir a ser um deles).

 

A retomada da hipótese comunista por (pelo menos) três dos autores em torno dos quais gira Círculo é marcada por algum tipo de retorno ou referência “positiva” a Platão e, em particular, à realização filosófica historicamente ligada ao nome de Platão: a ideia. Trata-se, pois, de verificar o papel do recuo a Platão via ideia para a recolocação da hipótese comunista.

 

A referência mais explícita aqui é, naturalmente, Badiou. Se o Primeiro Manifesto, ligado a O ser e o evento, defende um platonismo do múltiplo, o Segundo Manifesto, ligado (sobretudo) a Lógica dos mundos, apresenta um segundo gesto platônico, o de um “comunismo da Ideia” (p. 115). A noção da ideia é trazida assim para o centro do que interessa ao Círculo, a saber, a reativação da hipótese comunista. Em linhas bem gerais, a ideia vale aí como aquilo que faz com que um indivíduo, um animal humano se oriente pelo verdadeiro, incorporando-se fielmente ao sujeito de uma verdade. Nesse sentido, a ideia estaria ligada não só à política, mas também aos demais procedimentos genéricos – embora, para nós, interesse aqui delimitar o papel da ideia na política. Em todo caso, a ênfase nos parece ser aqui na relação entre o universal e eterno de uma verdade e o particular e temporal de um indivíduo; entre um e outro – eis o que sugeriria – se dispõe a singularidade universal da ideia: “(..,) a Ideia não é outra coisa que isso pelo que o indivíduo localiza/repara nele mesmo a ação do pensamento como imanência do Verdadeiro.” (ibid., p. 102)  A singularidade sempiterna da ideia é o nó entre a universalidade eterna da verdade e a particularidade temporal do animal humano. É nessa encruzilhada – a do comum entre o universal e o particular – que é preciso buscar o papel da noção de ideia na retomada do comunismo. E na medida em que, entre outras coisas, a ideia (ou o pensamento) não são sem as incorporações que o materializam (não obstante aquela/e as tome, as violente), a perspectiva de retomada das ideias pretende-se materialista.

 

Do jeito sinuoso que lhe é peculiar, Zizek parece assumir a retomada de Platão como (uma das formulações possíveis) da tarefa filosófico-política contemporânea: “Essa, portanto, é nossa escolha (decisão) filosófico-política básica hoje em dia: ou repetir com uma pegada materialista a asserção de Platão da dimensão meta-física das “Ideias eternas” ou continuar residir no universo pós-moderno do relativismo historicista “democrático-materialista”, pegos no círculo vicioso da eterna luta contra “fundamentalismos” pré-modernos.” (Less than nothing, p. 42). A saída do universo “relativista” e “historicista” é, pode-se supor, a entrada em um horizonte que, mesmo reivindicando o materialismo, ainda assim reserva uma dimensão absoluta, a-histórica – dimensão representada ou, ao menos, indicada pela noção de ideia em Platão. E se é verdade que a ideia, já em Platão, não é algo por trás da aparência e que sustenta o mundo como fundamento permanente de sua totalidade, mas sim (ao menos implicitamente) a aparência enquanto aparência e “nada mais (ou menos)” (ibid., p. 37) – então será que a leitura do Parmênides, de Platão como um exercício cujo resultado é de que não há “totalidade consistente”, não há “grande Outro” (p. 49), não seria ela mesma a exposição do que é próprio às ideias? Se o que a inexistência do grande Outro significa é que todo edifício ético se funda num ato político radical (p. 963) – não seria a decisão firme de Platão pelas ideias (em particular a ideia de bem) como fundamento da comunidade (justa e boa) uma decisão dessa natureza? Assim, à universalidade singular, à sempiternidade, ao materialismo, acrescentam-se o abissal da decisão (de certa maneira já presente nas noções de fidelidade e indiscernibilidade de Badiou) e a não totalização (de certa maneira já presente na multiplicidade genérica de Badiou).

 

No primeiro capítulo de A comunidade que vem, Agamben menciona a Ideia em Platão como o ter-lugar de alguma coisa. Se considerarmos que a ideia é o inteligível para Platão, essa aparece ainda (via Gersonide) como singularidade qualquer. Sabe-se do papel fundamental dessas noções para o que Agamben delimitará como a comunidade que vem – e, quiçá, para a relação deste com o comunismo. Por outro lado, dentre os antigos, Aristóteles parece que terá uma importância mais perene e visível em Agamben.

 

Assim, em linhas gerais, e quiçá em grau decrescente de importância noas autores mencionados, a ideia aparece como dispositivo para pensar o (ter-)lugar do comunismo, da política. Pelo que ficou esboçado acima, a noção (não totalizante) de singularidade (qualquer), relacionada tanto ao abissal “pessoal e intransferível” da decisão não predicativa e sem apoio externo quanto ao universal dessa condição mesma, pode ser o fio condutor (inicial) para pensar o lugar desse dispositivo, bem como que e como o seu papel (já) em Platão pode servir à reativação da hipótese comunista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *