NOTA #4 [02/12/2014] (SP)

Era uma vez uma sociedade que se dizia livre. Era uma vez, um lugar onde os indivíduos acreditavam que tinham poder de escolha. Eles iam ao restaurante MacDonalds e fiavam escolher o próprio lanche, escolhiam um entre os 12 lanches que o cardápio oferecia. Eles também corriam para as lojas de sapatos comprar o tênis da Nike assim que esse era lançado; gostavam de fazer filas nas frentes das lojas, pela madrugada a fora, para comprarem eletroeletrônicos; outros trocavam de carro a cada estação; algumas mulheres marcavam lipoaspiração para o verão acreditando na escolha de ter ou não mais gordurinhas localizadas. Esse faz de conta da pós-modernidade não deixa de ser uma variação dos antigos contos populares; eles partilham narrativas que reproduzem os valores culturais de geração para geração, além de trazerem a figura do herói e/ou da heroína que enfrenta grandes obstáculos para alcançar o final feliz. No caso, o homem moderno configura-se como um “anti-herói” ou herói às avessas (ele está confuso e angustiado). No fundo, ele não tem muita certeza se quer ou não se alinhar ao “mal”; ele diz que não se alinha, mas suas atitudes mostram o contrário, quando ele fica muito ansioso, sem saber para onde ir, ele recorre às compras e se deleita na adoração das mercadorias.

Muitos teóricos da linguagem ao analisarem a estrutura do faz de conta o classificaram como uma estrutura repetitiva, ou seja, uma configuração onde categorias narrativas se repetem, logo o autor apenas preenche algumas lacunas estruturais. Por isso, muitas das histórias dos contos de fadas são semelhantes, elas fazem parte de um modelo com um enredo pré-determinado. Essa predeterminação tem ficado cada vez mais visível também nas narrativas contemporâneas, apesar delas parecerem novas e com um enredo “moderno” e “non sense”. A repetição discursiva das narrativas nos leva a uma análise interessante da sociedade atual: o enredo, os personagens e as ações construídas. Por exemplo, no texto como “Marx inventou o sintoma”, de Slavoj Zizek ( a partir da página 312) entendemos o cinismo como forma de ideologia; entendemos que há uma lógica cínica regendo a sociedade e os personagens que nela atuam; essa lógica não mais força os participantes há uma submissão cega. Na verdade, muito do que se vê como atitudes de submissão são aceitas pelos participantes com certa docilidade.

Os personagens das histórias atuais, apesar de se saberem dominados, aceitam e ainda se dizem livres, atitudes que Zizek explica no seu texto como racionalidade cínica. No texto, entendemos a inversão perversa do: “Eles não sabem, por isso fazem”; nota-se que na lógica cínica a atuação é “Eles sabem, por isso fazem”. Por isso, torna-se importante entender porque o sujeito (pensando no individual e coletivo) tomando conhecimento da sua submissão e das ideologias em que está amarrado continua na mesma posição; afinal, qual a ilusão que se cria ao fazer que não se sabe aquilo que supostamente sabe? Instaurou-se na pós-modernidade um modo de viver ditado pelo “como se” ou ele sempre existiu?

O herói às avessas, como citamos no primeiro parágrafo, por exemplo, passa horas em frente aos aparelhos eletrônicos buscando preencher lacunas da história-vida que não consegue escrever, porque escrever é um trabalho de corpo e singularidade que exige quebrar a lógica da repetição para produzir algo novo, atingir uma diz-mensão. O sujeito então busca, por meios dos aparatos eletrônicos, a onipotência e a onipresença, isto é, modos de permane-ser. O consumo torna-se uma nova ordem do existir. A heroína (ou herói) também compra as imagens corporais de sucesso, as quais são vendidas pela mídia, e assim assume o próprio corpo como uma mercadoria. Achando-se livre, o sujeito entende que o corpo lhe pertence, mas não analisa como muitos discursos indicam que o corpo não deve ser aceito como é; deve-se constantemente corrigi-lo, muda-lo, transformá-lo. Na lógica atual, o corpo não pode se apresentar de forma real, com os efeitos do tempo, das enfermidades, do excesso de peso ou da ausência dele, dessa forma, criam-se imagens. Então, podemos compreender que a lógica do cinismo insiste no discurso do “Era uma vez…” repetindo estruturas e padrões de consumo que nutre a demanda do mercado: indústria médica, farmacêutica, cosméticos, etc., além de manter o sujeito na mesma posição de quem busca se preencher pelo excesso.

Felizmente, na literatura, em algum momento os poetas e prosadores resolveram inovar e reconstruíram estruturas diferentes do “Era uma vez”, criou-se então versos e prosas que faziam outro manejo das palavras e dos discursos, os personagens não mais atuavam na dicotomia vilão versus mocinho, por exemplo; a temática não era mais o ensinamento dos bons costumes e a pregação das lições morais. Os escritores perceberam que a literatura ultrapassava uma dimensão do simulacro da vida cotidiana, ela era intrínseca ao sujeita e por meio dela o sujeito se constituía. Para Badiou, o poeta Fernando Pessoa foi um desses invencionista que criou uma nova poética do dizer, Pessoa conseguiu criar algo novo, um evento para concepção badiouniana, uma vez que o evento interrompe a repetição. Entretanto, criar algo novo, articular um evento, exige do sujeito uma mudança de posição subjetiva, exige encarar a falta e o vazio de que nada está pronto e articulado (como os contos de fadas garantiam). Portanto, para que o herói às avessas possa sair do faz de conta é preciso que ele se aceite com as suas falhas; não buscando na mercadoria ou na imagem do corpo perfeito o preenchimento de suas faltas. É preciso rever-se nos versos pessoanos para compreender o vazio :

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo.

que ninguém sabe quem é

( E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a por umidade nas paredes

e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

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