Nota 5 [14/05/2013]

“Porque o amor nunca escolhe uma determinada propriedade  do amado  (o ser-louro,  pequeno,  terno, coxo), mas tão-pouco  prescinde  dela em nome de algo insipidamente   genérico  (o amor  universal): ele quer  a coisacom todos os seus predicados,  o seu ser tal qual é. Ele deseja o qual apenas  enquanto tal – este é o seu particular fetichismo.  Assim, a singularidade  qualquer (o Amável) nunca  é inteligência  de algo, de determinada   qualidade  ou essência, mas apenas inteligência  de uma inteligibilidade.  O movimento,  que Platão  descreve  como  a anamnese  erótica, é o que transporta  o objeto não na direção  de uma outra  coisa ou para um outro lugar,  mas para  o seu próprio  ter-lugar  –  para  a Ideia.”
Agamben, capítulo I “Qualquer” de A comunidade que vem.
Nesta reunião, nosso Secretário-Geral fez uma excelente apresentação sobre a influência de Gramsci na política brasileira recente e, notadamente, no Psol. Debatemos sobre as possibilidades abertas pelo gramscianismo e seus limites. A referência ao texto de contribuição ao IV Congresso do Psol recém publicado pelo grupo independente do Psol-RJ, “Para que o Psol continue necessário”, foi uma constante. Comento brevemente uma questão apresentada pelo referido texto, e também debatida na reunião, o problema da coesão partidária.
Segundo o texto, o Psol hoje é mais um partido de correntes do que um partido com correntes, ou seja, um partido extremamente fragmentado e sem unidade estratégica. As disputas internas pelo aparelhamento partidário demarcam mais o interesse dos grupos em disputa do que a causa política que deveria atravessar todo o partido, debilitando a funcionalidade de importantes cargos partidários. Em suma, precisamos urgente de unidade partidária. No entanto, essa exigência nos faz cair numa aporia: como conseguir unidade partidária sem cair na perda da democracia intrapartidária (nas entrelinhas, sem fazer recurso a um “Campo Majoritário”)? Sobre isso, alguns apontamentos.
Primeiro, devemos abandonar o ideal de unidade partidária. Na história política moderna, nunca existiu uma unidade partidária perfeita. Aliás, nunca vai existir. Parece que quanto mais buscamos a famigerada “unidade”, mais nos distanciamos dela. Nisso, o significante mestre “unidade” acaba sendo substituído por outro que tenta realizar seu intento “escondendo” os dissabores que o ideal de harmonia social impõe. O recurso a um significante mestre que dê consistência à existência de um Grande Outro (como “Democracy”, na política estadunidense, ou “Partido”, no stalinismo, ou “neodesenvolvimentismo”, no Lulismo) inevitavelmente oblitera o próprio campo de realização da política – que é sua abertura radical para o devir histórico, sua dimensão ex nihilo, acontecimento (só na política acontecem milagres!).
No entanto, simplesmente nos deixarmos levar pela dispersão da multiplicidade, acreditando na política como quebra incessante de identidades, nos leva à pior identidade, à identidade que dispersa a força da diferença em “múltiplos fenômenos culturais”. Para usar um jargão deleuzeano, uma política como pura desterritorialização (o que só nos leva ao fortalecimento do capitalismo e muitos fascismos). (Parênteses: na prática, parece que o gramscianismo não consegue se distinguir muito do deleuzeanismo yuppie). Precisamos sim de identidade, mas de uma outra indentidade. Uma identidade que não se contrapõe à diferença, mas que seja sua realização mais radical. O Espírito Absoluto do Hegel zizekeano. Uma identidade que sustenta a radicalidade da diferença é um ponto de costura no tecido da história que aponta para o desejo e serve de operador da repetição. Em termos badiouanos, um nome próprio pode operar como este significante “ponto de costura”.
Às vésperas do último e grande comício das eleições de 2012, enquanto uma grande tempestade esfriava os ânimos da militância, uma jovem escreveu um comentário sublime numa página do Facebook: “Não sei de vocês, mas estou mais certa que o Freixo nessa”. O que ela demonstrou é que ser verdadeiramente “freixeano” é ser mais Freixo que o Freixo.
Cuidado: devemos evitar ao máximo a identificação com o indivíduo Marcelo Freixo, pois isso só nos leva a um normatismo de conduta que desemboca, por exemplo, na confusão de ética com legalismo (vide o movimento “Basta!” ou aqueles que se reduzem a combater a corrupção). (Nesse sentido, a propagação do nome Freixo promovida pelo filme Tropa de Elite 2 foi um tiro no pé. Diogo Fraga é apenas um bocó e a coragem – mais uma vez – foi retratada pelo fascista Capitão Nascimento). O exemplo clássico dessa identificação equivocada encontramos nos desdobramentos históricos da figura de Che Guevara, que foi mercadologizada ao máximo e acabou estampando o biquíni de uma famosa modelo brasileira (aliás, com a ironia do encontro de dois significantes caros à fantasia de Brasil, política e bunda). (Em tempo: uma possível imagem contraideológica seria inserir digitalmente manchas marrons na calcinha. Aí a merda ficaria às claras). Por isso que Zizek insiste que devemos revitalizar Che, mas como repetição do gesto, que se define nisto: amar.
Daí que acredito que a nossa identificação não deve ser com o indivíduo Marcelo Freixo (o que seria um erro fatal), mas com a jovem militante. De forma delicada, ela repetiu o gesto freixeano da coragem. A tempestade que se avizinhava se tornou um potencializador da militância. Na frase “Marcelo Freixo é um político corajoso”, Marcelo Freixo é o sujeito, um nome próprio, um exemplo (no sentido agambeniano), que serve como suporte para a experiência real do predicado coragem. O ato da jovem militante de escrever aquele comentário foi sublime porque trouxe a marca do amor pela causa, do amor sem objeto, intransitivo. Em última instância, “foda-se o Freixo! [ou seja, foda-se o objeto]. Eu sou mais corajosa que ele!”.
Ali, naquela chuva desgraçada, e mesmo já sabendo que não ganharíamos, acreditávamos.  Era um encontro. Ali o partido se realizada (o partido deve ser o lugar do amor da política, e não dos “narcisismos das pequenas diferenças”). A jovem militante realizou a experiência do amor do qualquer agambeniano. Ali éramos qualquer, amávamos. Não buscávamos, muito menos esperávamos, por um milagre. Nós fomos o milagre.
A “unidade” não existe, o que existe é a Ideia. A coesão não existe, o que existe são milagres.
 “Para  que  referir  tudo  no  narrar,  por  menos  e  menor? Aquele   encontro   nosso   se   deu   sem   o   razoável   comum, sobrefalseado,  como  do  que  só  em  jornal  e  livro  é  que  se  lê. Mesmo  o  que  estou  contando,  depois  é  que  eu  pude  reunir relembrado  e  verdadeiramente  entendido  –  porque,  enquanto  coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio  é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante.  – “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as  horas  de  todos” –  me  explicou  o  compadre  meu  Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro  dela  se  esteja,  e  que  tudo  ajunta  e  amortece –  só  rara  vez  se consegue  subir  com  a  cabeça  fora  dela,  feito  um  milagre: peixinho  pediu.  Por  quê?  Diz-que-direi  ao  senhor  o  que  nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer  que  isso  seja,  e  vai,  na  idéia,  querendo  e  ajudando; mas, quando  é  destino  dado,  maior  que  o  miúdo,  a  gente  ama inteiriço  fatal,  carecendo  de  querer,  e  é  um  só  facear  com  as surpresas.  Amor  desse,  cresce  primeiro;  brota  é  depois.  Muito falo,  sei;  caceteio.  Mas  porém  é  preciso.  Pois  então.  Então,  o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?!  Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha.  Peço  não  ter  resposta;  que,  se  não,  minha  confusão  aumenta.  Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu vencendo,  aí  estremeci num relance claro de medo  –  medo  só  de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que  eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que  eu de repente me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?…” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam  só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém não sabe”, Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

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