NOTA #7 [01/04/2020] (RJ I)

Continuando a nota sobre a ética do CEII e a possibilidade de uma composição artista-militante.
Pensando nesses assuntos, escrevi o seguinte texto, em colaboração com um amigo, que tem a tese do “artista falido” como categoria diferente da de “artista”. Isso torna a idéia um tanto engraçada, porque então a maioria dos artistas não são artistas e sim “artistas falidos”. A idéia é que o artista falido é um trabalhador assalariado sim, e o faz pelos mesmos motivos dos trabalhadores não-artistas e mais o motivo suplementar de sustentar a própria arte (compra de materiais, livros, etc). Diferentemente do capitalista, mas, de fato, próximo do micro-empreendedor que pretende simplesmente manter a própria subsistência, o artista-trabalhador trabalha como os outros e trabalha também tendo em vista o tempo liberado que poderá produzir um dia para a própria arte- e, se tiver sorte, por meio dela. Assim, o fato de ele se dividir entre trabalho assalariado e arte o coloca como alguém que deposita as esperanças no trabalho para liberar o tempo para a arte, e na arte para liberar o tempo de sua submissão ao trabalho.
Isso nos lembrou o trecho de Marx citado num texto importante do CEII- “O fim da organização”.
Cito: 

   Os trabalhadores se reúnem e apropriam-se “de uma nova carência, a carência de sociedade, e o que aparece como meio, tornou-se fim. (…) Nessas circunstâncias, fumar, beber, comer, etc. não existem mais como meios de união ou como meios que unem. A companhia, a associação, o entretenimento, que novamente têm a sociedade como fim, basta a eles; a fraternidade dos homens não é nenhuma frase, mas sim verdade para eles, e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir dessas figuras endurecidas pelo trabalho.”[1]

E nosso texto continua:

“Esta reversão entre meios e fins[2]– a reunião e organização como um meio para a revolução se torna um fim em si mesmo, malgrado ser malvista por algumas pessoas engajadas na militância como uma desativação do ímpeto revolucionário, exibe não a confraternização como solução e desativação das demandas de emancipação e sim como lugar onde a carência desta associação, prazer, entretenimento, em suma, se torna visível a todos, e na prática artística essa carência encontra uma realização possível. Uma carência que não é do tempo livre determinado pelos limites do tempo do trabalho, mas do tempo liberado. Uma carência que, ao ter sua existência enquanto carência admitida, pode vir a ser motivadora para o exercício da transformação social.

2.      Não se trata de apenas compreender as condições do sistema de arte, mas de transformá-las. A constituição da composição artista-trabalhador é a constituição da organização autônoma onde são temporariamente suspensos os imperativos e demandas de sobrevivência de cada um. A organização é a obra e a teoria e o prazer e a vivência. O tempo da construção do futuro é o tempo livre que se torna liberado. O mapa dessa transformação só poderá ir sendo recolhido pelo exercício da própria organização.

3.      O artista trabalha por salário para liberar o tempo para a arte, e faz a arte para conseguir um dia se liberar do tempo do trabalho.  Das duas maneiras o fato de haver uma disjunção interna na sua vida de trabalhador e artista mostra um horizonte de demandas possível- o do tempo liberado- que se confunde com a conquista do comum. Esse horizonte só se faz presente por meio da consciência da falta- que não é simplesmente a falta que existe, embora não saibamos, mas a falta que é sentida como falta quando temos o gostinho da liberdade permitida pelo tempo livre.”

A pergunta que fica é: de que maneira concretamente se pode constituir uma organização que faça a composição do artista e do trabalhador, se utilizando desse espaço da “inutilidade” que une um e outro como carentes e despossuídos?


[1] Marx- “Manuscritos econômico-filosóficos”, pp 145-46

[2] Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia. “O fim da organização” https://lavrapalavra.com/2016/05/20/o-fim-da-organizacao/

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