NOTA #7 [08/07/2020] (RJ)

Eu participo de um grupo de estudos marxista e nessa semana o texto que discutimos foi um fragmento dos Manuscritos Econômico-filosóficos do Marx. Trago a seguir a citação de um trecho que me chamou atenção, intitulado “Um erro duplo em Hegel”:

“O primeiro evidencia-se de maneira mais clara na Fenomenologia, como fonte originária da filosofia hegeliana. Quando ele concebe, por exemplo, a riqueza, o poder estatal, etc., como essências alienadas para o ser humano, isto só acontece na sua forma de pensamento (…). São seres de pensamento e por isso simplesmente uma alienação do pensamento filosófico puro, isto é, abstrato. Todo movimento termina assim com o saber absoluto. É justamente do pensamento abstrato que estes objetos se alienam, e é justamente ao pensamento abstrato que se opõem com sua pretensão à efetividade. O filósofo (uma figura abstrata, pois, do homem alienado) erige-se em medida do mundo alienado. Toda a história da exteriorização e toda retomada da exteriorização não é assim senão a história da produção do pensamento abstrato, isto é, Absoluto (veja-se pag XIII), /XVII/ do pensamento lógico e especulativo. A alienação, que constitui, portanto, o verdadeiro interesse dessa exteriorização e superação desta exteriorização, é a oposição entre o em si e o para si, a consciência e a autoconsciência, o sujeito e o objeto, isto é, a oposição, no interior do próprio pensamento, entre o pensamento abstrato e a efetividade sensível ou a sensibilidade efetiva. Todas as demais oposições e movimentos destas oposições são apenas aparência, o invólucro, a figura esotérica destas oposições, as únicas interessantes que constituem o sentido das restantes profanas oposições. O que vale como essência posta (gesetzte) e a superar da alienação não é que o ser humano se objetive desumanamente, em oposição a si mesmo, mas sim que se objetive diferenciando-se do pensamento abstrato e em oposição a ele.” (MARX, 1978, pg 36)

Esse trecho me chamou atenção por conta do caráter crítico que Marx pensa a dialética hegeliana e a ideia de saber absoluto, mas, entretanto, me parece ser, como em todo o texto, uma crítica um tanto confusa. Marx parece combater o que entende como um excesso de abstração em Hegel, tentando resgatar um núcleo essencial da dialética (no caso aí, o conceito de alienação e a oposição entre em si e para si), caracterizando as nuances dessa contradição como apenas “aparência, o invólucro, a figura esotérica dessas oposições” e é justamente aí que me parece a maior contradição. Marx se mostra preocupado em capturar a essência do pensamento dialético, seu núcleo materialista, e é para isso que tenta chamar atenção, no entanto, quando verificamos segundo o Zizek no texto “Como Marx inventou o sintoma”, em sua efetividade teórica e original, Marx procede quase como hegelianamente no que se refere à analise das mercadorias. Tanto é que chama atenção não para a “essência” da forma-mercadoria, seu caráter oculto e misterioso, e sim, para a própria forma, a maneira pela qual o produto do trabalho humano se transforma em mercadoria. Não sei se consegui tornar meu ponto claro nesta nota, mas me parece que existe uma contradição entre o que Marx diz e critica em Hegel e seu próprio desenvolvimento teórico pessoal, quase como se ele inconscientemente fosse mais hegeliano do que gostaria.

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