NOTA #7 [22/04/2020] (RJ I)

COMISSÃO OPERATIVA DE SAÚDE MENTAL PCB – PROPOSTA DE INST NCIA DE ACOLHIMENTO PSICOLÓGICO 
Na última reunião a comissão encaminhou que será disponibilizado um contato de e-mail da comissão e o telefone de um dos integrantes para Acolhimento Psicológico (AP). Esse recurso tem a finalidade de abrir um canal de comunicação para os militantes  que sentirem necessidade de uma atenção profissional. Destacamos que esta iniciativa não visa promover atendimento clínico terapêutico. Trata-se de um atendimento profissionalmente qualificado que visa auxiliar a/o militante a encaminhar suas demandas de saúde mental. Este acolhimento não tem um período estabelecido à priori. Cada pessoa que procurar esta instância será acolhida dentro da especificidade do seu momento e das suas necessidades.Mesmo que a finalidade do acolhimento psicológico não seja a prestação de serviço clínico, cabe ponderar que isso não implica em não haver a possibilidade de um encaminhamento das demandas que chegarem ao AP. Entendemos que, respeitando o tempo e as possibilidades de cada militante, o sucesso deste acolhimento será medido pela capacidade de conseguir auxiliar a pessoa a ter na célula/núcleo sua referência de acolhimento para demandas de saúde mental. Nesse sentido, entendemos o AP como um dispositivo que visa principalmente colocar em circulação, de forma generalizada (guardadas as devidas proporções e possibilidades de cada instância), a promoção, a prevenção e a intervenção em favor da saúde daqueles que compõem o partido e os coletivos. A divisão social do trabalho no atual modo de produção nos segmenta na forma de trabalhadores especializados. O conhecimento e a capacidade de atuar na sociedade é disciplinado por formas de controle do exercício de saberes através da limitação do acesso a tais saberes e da vigilância sobre seu exercício.  A finalidade do controle do acesso e do exercício dos saberes é, sobretudo, garantir segurança jurídica e o rebaixamento do valor da força de trabalho. É sensato dizer que colateralmente produzem-se mecanismos de regulação e controle que protegem a vida das trabalhadoras e dos trabalhadores, mas apenas até o ponto em que a existência do proletariado cumpra uma função para a extração de mais-valor, seja no mero mantenimento da sua existência precária, seja como produtor extenuado de valorização do capital. A sensação de não sermos capazes de lidar qualificadamente com demandas de saúde mental é em parte uma constatação responsável de quem entende que é necessário o domínio sobre um conjunto de conhecimentos e procedimentos específicos para não causar mais dano do que ajudar, mas também é efeito desta específica segmentação do trabalho que a ideologia nos impõe. Não se trata de dizer que subitamente qualquer pessoa possa passar a oferecer o que a Psicologia chama de escuta qualificada, antes, é dizer que é possível e necessário que o conjunto de conhecimentos que fundamentam a qualificação de uma intervenção em saúde mental podem ser construídos à medida em que nos confrontamos com necessidades que se apresentam. No percurso dessa generalização dos saberes, buscando superar a divisão capitalista do conhecimento e do trabalho, a mediação entre aqueles que tiveram a oportunidade e o desejo de dominar em algum grau o acúmulo humano sobre um determinado campo e os identificam a necessidade de contato com tal acúmulo é fundamental e, destaco, não poderá se dar no formato de educação bancária. É na especificidade de cada necessidade singular que o conhecimento qualificado e efetivamente pertinente é produzido. No campo da saúde mental a transmissão desse saber necessariamente passa pelo sofrimento daquele que fala, mas necessariamente também pelo sofrimento daquele que escuta. Dessa forma, um dispositivo como um AP nos parece ser um primeiro movimento em favor de uma caminhada neste sentido.Tendo estendido o argumento sobre a pertinência e a função deste recurso no partido é importante dizer que demandas mais graves, que entendemos necessitarem de atenção singular serão acompanhadas prioritariamente para os serviços públicos de saúde mental disponíveis. Em não havendo essa possibilidade poderá ser feita indicação para uma ou um profissional de saúde. Nenhuma destas últimas opções implica na desimplicação da comissão operativa como mediadora entre a pessoa e a célula/núcleo.   Por fim, para além dos argumentos favoráveis a uma nova relação entre saberes, práticas e responsabilidade intersubjetiva, nos parece pertinente destacar dois últimos argumentos que desincentivam o atendimento clínico endogâmico no partido. O primeiro deles é de ordem técnica. No campo mais especificamente psicanalítico percebe-se que a concentração de tipos variados de relações entre dois sujeitos pode produzir mais sofrimento ao invés de mitigá-lo. Caso aquele que presta serviço psicológico seja também uma pessoa socialmente próxima, o processo terapêutico pode ser dificultado tanto da parte de quem procura o serviço quanto de quem oferece, pois uma outra relação qualquer pode acabar concorrendo com a relação terapêutica em favor da estabilidade daquela. Outro argumento é de ordem ética. Organizações militantes que tendem a abrir espaço para inscrição de profissionais de saúde acabam por abrir um nicho de mercado e com isso incentivar tanto uma disputa interna entre os profissionais quanto uma vinculação financeira de mercado dos profissionais com a organização. Não se trata de vetar a possibilidade de relação terapêutica clínica entre militantes e tão pouco de troca de quaisquer serviços ou produtos. No terreno da ética as ponderações buscam apontar dilemas, qualificando cada decisão com a advertência das suas consequências extensas. O debate mesmo sobre as relações econômicas dentro das organizações militantes e o papel destas novas relações para a construção de um igualdade de fato é ainda um terreno delicado e fértil.           

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