NOTA #7 [24/06/2020] (RJ I)

No melhor estilo Dark, essa nota é a continuação de uma nota relativa a uma reunião posterior (a saber, a nota 1 de 15.07.2020: https://notas.ideiaeideologia.com/nota-1-15-07-2020-rj-i/). No que se refere à sequência das reuniões, a continuação vem temporalmente antes do início da conversa, portanto.

Tendo a concordar que toda e qualquer pessoa é atravessada por uma (ou mais) ideologia(s). Também não é o caso de que se possa alcançar um ponto absolutamente livre de ideologia. Além disso, também acho que a consciência da ideologia é um passo importante da crítica à ideologia. Mas esse tomar consciência talvez não seja suficiente; não o é, em todo caso, do ponto de vista de uma abordagem da psicanálise, por ex. Isso porque mesmo consciente das determinações ideológicas ainda assim a gente está submetido às determinações dela. É o caso também em Marx, quando ele fala do fetichismo da mercadoria: a coisa opera ideologicamente na prática através da gente mesmo que a gente esteja consciente dessas determinações ideológicas. Aquela história do “Eles sabem o que fazem, mas mesmo assim…”. Nesse sentido, a ideia de “ter consciência de” teria, no mínimo, esse limite de, ao que parece, não ter nenhum efeito sobre a determinação ideológica. Não que devesse ter, e tal, mas vc acha que tem? Em outros termos, há alguma vantagem e, se há, qual é a vantagem de tomar consciência da ideologia? Parar por aí não recairia justamente no que Marx critica na Ideologia Alemã e algures, a saber, que se trata de uma superação meramente teórica, nem que seja via uma dimensão que escapa minimamente da ideologia na medida em que tem consciência dela, e não uma possível superação prática do que produz esses pressupostos, possibilitando a assunção de outros?

Pois esse conceito de ideologia como pressupostos inconscientes e inescapáveis me lembra muito a ideia de pressupostos presentes na tradição da hermenêutica em geral (de modo mais evidente em Heidegger e Gadamer) e na fenomenologia desde Heidegger, pelo menos. Nesse caso, ter consciência dos pressupostos traz a contribuição não de romper o círculo no qual sempre já estamos — pois não há relação com a “realidade” que não venha carregada de pressupostos –, mas de entrar nele de maneira mais produtiva, pois, ganhando consciência dos pressupostos, é possível levá-los a seus próprios limites e, quiçá, assumir e/ou incorporar outros. A rigor, quando se chega ao limite de certos pressupostos é que já se “caiu” em outros, que por sua vez só se revelarão em seus limites à luz de outros pressupostos.

Nesse sentido, vc não sai do ciclo de pressuposição (da ideologia), mas pode “entrar” nele de maneira mais ou menos produtiva. Donde, se cava um campo para a crítica da ideologia que não é, em princípio, redutível à ideologia, pois diz respeito a uma forma de lidar com determinações ideológicas que permite uma certa distância em relação a eles (nem que seja a mínima “consciência de”).

Mas de novo se pode colocar aí a questão de se essa dimensão não é ela mesma ideológica e que critérios há para dizer que há uma distância mínima. Ora, justamente não dá para saber se escapamos “definitivamente” da ideologia, porque precisaríamos de um ponto de vista “divino” da “verdade”, não ideológico. Mas isso significa que devemos abrir mão do ponto de vista da totalidade e, mesmo, da verdade? Ora, isso é que não me parece se seguir. É o que tentei dizer falando antes de uma totalidade “aberta” (uma totalização histórica, no sentido do Sartre da Crítica da Razão Dialética, talvez), constituída “negativamente” pela crítica da ideologia, cuja pedra de toque é justamente a abrangência e, nisso, o poder explicativo. A isso eu acrescentaria a ideia de uma verdade (de uma eternidade…) construída.

Uma alternativa a esse modelo é essa explicação que costumamos associar à pós modernidade: todas as posições são igualmente válidas, não há critérios para decidir entre elas — e aí chegamos no ceticismo do qual o Rafael falou, me parece. Isso que estaria relacionado à “igualdade no sentido prático” à qual me referi. A paralaxe no Karatani e o perspectivismo seriam saídas para esse ceticismo (que ele nem chegou a apresentar, mas acho que vai nessa direção).

O que esse modelo cético/pós-moderno não parece ver é que ele mesmo é uma totalização — uma que faz com que todos os gatos sejam pardos, menos, talvez, o discurso que aponta isso. Daí me parece se seguir que uma dimensão da estruturação ideológica da qual não podemos escapar é justamente seu caráter totalizante. Donde, a disputa ideológica talvez possa apelar para essa totalização como critério para dizer que algumas ideologias são “piores” que outras.

Não acho que esse critério necessariamente se opõe ao de pensar em termos de perspectivismo e paralaxe, por ex. Porque em ambos os casos se produz um ponto de vista… totalizante que permite circular entre diferentes sistemas ideológicos _e_ fazer a crítica de sistemas que não são capazes de fazê-lo. Mas de novo: toda a ideologia não faria isso? Não, o fascismo, por mais abrangente que seja, por exemplo, opera por exclusão de sistemas e, por isso, falharia justamente do ponto de vista da totalização. Não pode ser tomado como um igual então. O problema do ceticismo e da pós-modernidade seria justamente o de que fazem tábula rasa dessa distinção. Sim, nesse sentido algumas ideologias seriam problemáticas do ponto de vista dessa totalização menos abrangente e tal.

Enfim, pode soar tudo muito assertivo na maneira em que formulo, mas são coisas que estão em aberto, e tal.

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