NOTA #8 [15/07/2020] (RJ)

Polemizando com uma discussão do grupo, me pergunto o que faz de fato um militante. Se condicionarmos o ‘verdadeiro militante’ em função de uma base necessariamente socialista/comunista/marxista, então o Thomas Piketty, com seu novo livro para lançar “Que venha o socialismo!”, certamente seria um de nós.
Eu pouco problema tenho em contá-lo entre os meus, mas muitos gostam de apontá-lo como ‘mais um economista liberal pós-keynesiano’. Se, por outro lado, usarmos um critério do militante baseado em eficácia (quanta diferença ele fez em relação ao projeto de transformar as condições materiais em direção a uma sociedade mais igualitária), então o Piketty certamente está a minha frente, e também a frente da maioria das pessoas que conheço… De modo similar, e para continuar a polêmica, também seria mais militante Wesley Teixeira do que boa parte dos membros do PSOL ou outros partidos ditos revolucionários, independente dele se autodenominar comunista ou não. Colo aqui uma citação desses dois militantes com os quais não tenho vergonha de compartilhar um projeto comum.

“Mas é o seguinte: trinta anos depois [da queda do muro], em 2020, o hipercapitalismo foi longe demais, e estou agora convencido de que precisamos pensar em uma nova superação do capitalismo, uma nova forma de socialismo, participativo e descentralizado, federal e democrático, ecológico, mestiço e feminista.
A história decidirá se a palavra “socialismo” está definitivamente morta e deve ser substituída. De minha parte, acredito que pode ser salvo, e mesmo que continua sendo o termo mais apropriado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo. Em qualquer caso, não se pode contentar em ser “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo: é preciso também e sobretudo ser “a favor” de outra coisa, o que exige a designação precisa do sistema econômico ideal que se deseja implantar, a sociedade justa que se tem em mente, seja qual for o nome que se decida finalmente dar-lhe. Tornou-se comum dizer que o atual sistema capitalista não tem futuro, pois aprofunda as desigualdades e esgota o planeta. Isto não é falso, exceto que, na ausência de uma alternativa claramente explicada, o sistema atual ainda tem muitos dias pela frente.”

“Não acho que a questão esteja na pauta acertada e sim na nossa real ligação com a base popular do nosso País. Está aberta uma janela histórica em que devemos nos unir em diferentes escalas, para resistir e para propor, mantendo nossa diversidade e aprendendo com os erros que todos nós cometemos, sem autoindulgência. […] Acredito na articulação daqueles e daquelas que confiam que outro mundo é possível e querem fazer algo por isso. Que não veem esse momento como o fim, que não se deixam levar pelo medo e não aceitam ser eliminados, pois sabem que sobrevivemos a escravidão, ao nazismo e a ditadura. Nossos inimigos vão ficar com a vergonha da história e vamos recomeçar. Para alcançarmos isso, o que fazer? […]
Esquerda e Direita são conceitos do século XVIII, da Revolução Francesa e do nascimento do capitalismo. Porém a luta dos explorados é anterior há isso e no século XX os projetos que contestaram o capitalismo, ou seja, os comunistas, socialistas e anarquistas tiveram experiências reais em alguns países, mas o Brasil não foi um deles.
Aqui a luta do povo se deu em quilombos, como em Palmares, em revoltas, como canudos, cabanagem e balaiada.
Nossa geração chega ao século XXI com a expansão do neoliberalismo, uma fase mais cruel do sistema, que motiva o individualismo e a competição e que prega a seguinte mentira:
“O mundo sempre foi assim e não vai mudar.” Diferente das gerações anteriores, crescemos sem ter um projeto em comum de futuro. É imprescindível resgatar a utopia, independente da denominação que daremos a ele, seja ela socialismo, anarquismo, comunismo, bem-viver, quilombismo ou Reino de Deus. Se não conseguirmos olhar para o horizonte, ficaremos buscando lugares seguros no passado.”

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