NOTA #8 [22/07/2020] (RJ)

Aproveito um trecho de matéria divulgada em nota anterior por um companheiro.

“Os partidos políticos têm muitos problemas, mas são a base da democracia. Mas os movimentos como esse nada mais são do que uma forma de garantir que os interesses dos seus financiadores sejam atendidos. Os partidos políticos são encarados por eles como meros trampolins para a defesa dos interesses das elites. Essa é a democracia que o dinheiro pode comprar.”

O jogo é bruto e precisamos jogá-lo, porque, infelizmente, já estamos nele. Mas os partidos apenas são a base da democracia no sentido extremamente limitado da democracia liberal em seu desenvolvimento histórico. Se pegarmos a história de nosso país, da primeira república até o período dito ‘populista’ logo antes da ditadura, os partidos eram centralmente aparelhos representativos de diferentes grupos da elite em disputa pelo poder estatal centralizado para seus interesses. É verdade que ao momento de maior abertura desse esquema seguiu-se a ditadura que nos deixou saudosos do ‘passado que nunca foi’, quando tínhamos democracia. Mas a ditadura, no falso jogo MDB x Arena, revelou a verdadeira essência da disputa partidária dita democrática. Nada muda de verdade nesse jogo, pois não são realmente esses políticos eleitos aqueles com o poder para ditar o rumo do país. Dos anos 90 em diante, voltamos a um jogo pluripartidário, mas não há nenhuma novidade na estratégia de “usar partidos como trampolins para os interesses das elites”. A esmagadora maioria dos nossos partidos funciona exatamente assim desde sua fundação. A esquerda é (ou tenta ser, ou deveria tentar ser) a exceção. Por partidos de massa, acredita-se ser possível subverter o jogo de dentro, mostrar que a democracia ainda não existe (nem existiu) nesse regime socio-político-econômico e que ela poderia ser implementada a partir de uma reorganização das atuais condições. Talvez mais realisticamente, a esquerda que aposta nessa como sua estratégia principal é aquela que insiste no polo Trabalho nas relações de oposição entre Trabalho x Capital, de modo a gerir, pelo aparelho Estatal, as condições de exploração capitalista em direções mais favoráveis para os trabalhadores. Se o plano é só esse, é difícil ver um horizonte de mudança revolucionária… Sem querer desvalorizar essa luta, pois ela certamente trouxe grandes ganhos para a classe trabalhadora ao longo de sua história, tbm acho que uma esquerda ‘inteligente’ deve perceber que o jogo ‘democrático’ como o conhecemos está viciado e não pode ser vencido por uma eleição. Devemos, como bons investidores do capitalismo financeiro atual, diversificar nossos portfólios. Há outras estratégias possíveis e necessárias, da formação de consciência de classe pelo trabalho de base a grupos de assistência comunitária e fortalecimento das redes de suporte locais…
Vc pode ser um professor de esquerda disseminando ideias na sua turma, um vendedor de caixa de supermercado de esquerda que tenta se organizar com colegas para exigir melhores condições de trabalho, ou uma associação de mães que gera uma rede de suporte mútuo em tempos de pandemia e desemprego… No sentido amplo do termo, me parece, são todas atividades que podem ser ‘conquistadas’ pela esquerda, e nenhuma que se aprisiona ou se define pelo campo estreito da política partidária dita democrática (o que ela nunca foi exatamente).

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