NOTA #4 [08/07/2020] (RJ I)

Na minha preparação para tentar o mestrado tenho percebido que, em geral:

a) quem estuda ação coletiva não tá muito preocupado nas condições materiais de sustentação de uma org. política (tipo, grana);

b) quem estuda grana não tá muito ligado nos problemas econômicos ligados à mobilização coletiva;

Isso é bem curioso.

NOTA #1 [15/07/2020] (RJ I)

É uma questão que me interessa muito a de pensar a ideologia e o ponto de vista a partir do qual se pode fazer uma crítica da ideologia. Será que, apesar das críticas que ela sofreu ao longo do século XX, a ciência ainda pode ser o lugar dessa crítica? Parece ser assim para Marx, à primeira vista. “À primeira vista”, porque talvez seja o caso de dar bastante atenção ao fato de que, se ele reivindica que o que ele faz essa ciência, por outro lado já está presente nele o ponto de vista segundo o qual a ciência também pode “padecer de” ideologia. Essa é uma das razões pelas quais, a rigor, ele não faz economia política, mas uma crítica da economia política.

Daí talvez uma ideia, que não sei se ajuda, de diferenciar neutralidade de parcialidade. O problema da ideologia não seria que ela não é neutra e que precisaríamos de um ponto de vista neutro para criticá-la; o problema, ou um dos problemas, é que ela seria parcial e que, portanto, precisaríamos de um ponto de vista da totalidade para fazer a crítica dela. Esse ponto de vista, por outro lado, pode ser gerado, e talvez só seja gerado, por meio de uma crítica ideológica — isto é, apontando os limites (fazendo a crítica, portanto) dos demais discursos e práticas. Não é que se teria uma totalidade prévia, mas que essa totalidade vem a ser através da crítica ideológica, e talvez seja sempre aberta, porque se há um outro discurso ou prática que aponte a lacuna do anterior (a sua parcialidade), esse se mostra ideológico etc.

Mas com isso só se aborda um lado, a totalidade. O outro seria a não neutralidade. Daí que a crítica da ideologia procuraria ser imparcial, mas não neutra, no sentido de que, no interior do todo, há certos posições nas quais o todo pode ser melhor “enxergado”. E a tese do Marx (e do Zizek, e do Badiou) seria que esse ponto de vista é o do proletariado, ou dos excluídos em geral, justamente porque eles ocupariam esse espaço limítrofe entre o “sistema” e seu fora (tanto por estarem excluídos, quanto por, nisso, conterem em si o germe de outro futuro, no qual essa totalidade estaria superada na prática).

Nesse sentido, não haveria uma simetria entre posições que levaria ao ceticismo ou algo do tipo (pós-modernidade ou sei lá o quê). Me parece que esse ceticismo só vale se aceitamos um pressuposto democrático-liberal de igualdade de posições. Aliás, se já na democracia liberal vale a ideia de que qualquer um pode governar, se há essa igualdade de fundo, ideia essa que valeria para a democracia em geral, então mesmo aí nem todas as posições seriam em princípio válidas — não o seriam, por ex., as posições fascistas que vão contra esse próprio princípio.

Não sei se está hegeliana demais (segundo uma interpretação de Hegel, ao menos) essa estrutura de superação da totalidade anterior por uma totalidade mais abrangente, de modo que a primeira aparece como parcial, ideológica, a partir da crítica da seguinte. Não sei também se talvez seja melhor formular isso não como passagem de uma totalidade que se mostra como parcial diante de outra mais abrangente, mas de diferentes totalidades/totalizações igualmente infinitas, mas com cardinalidades diversas, ao modo lá dos mundos do Badiou, talvez.

NOTA #12 [10/06/2020] (RJ I)

Recordo de que há um tempo em uma reunião o mais-um atual sugeriu por alto uma categoria de membresia em que o membro poderia se manter no CEII sem ter de cumprir as obrigações que confirmam o estatuto de membro (isto é, as notas). Este membro seria uma espécie de companheiro de viagem, que poderia “acessar” o CEII sem participar dele, alguém que estaria no mesmo barco mas sem remar, se compreendi bem e se me lembro direito da sugestão.

Já há um tempo na célula do CEII RJ decidimos que a dívida de quatro notas apenas impossibilitaria a participação do membro na próxima reunião, não mais ensejando o cancelamento da própria reunião. Essa mudança nas regras deu conta de todo o corre-corre pelas notas que havia até então, com a possibilidade de cancelamento da reunião sempre à vista, semana após semana. Por outro lado, na prática, tal mudança efetivou, de certo modo, a sugestão do mais-um mencionada acima, criando uma espécie de nova forma de membresia. Os endividados no limite, que já não participavam das reuniões – e não raro me encontro dentre eles -, tiveram como “punição” aquilo que eles já faziam ou fariam de qualquer jeito, ser vetado de participar da reunião (considerando que haja a verificação da contagem de notas para a participação, o que eu não sei se é o caso).

Longe de querer sugerir uma mudança no que está dando certo, esta nota apenas faz notar que a sugestão do mais-um, embora eu ache que ninguém a tenha levado muito a sério, ao que parece, acabou sendo acatada pelo coletivo. Atualmente o que distingue um membro do CEII é apenas o desejo de estar no CEII, não mais a disciplina e a comprovação material (a nota de trabalho) deste desejo, que outrora constituíram as condições da membresia.

NOTA #3 [08/07/2020] (RJ I)

Antes de se colocar na trincheira contra o inimigo, há que se construir a trincheira, e do lado de cá, olhar para os nossos. A construção da trincheira em vista dos nossos pode ser, inclusive, a melhor arma contra o inimigo, ao descobri-lo pulverizado organicamente numa estrutura plástica. Mais plástica ainda, mais orgânica ainda, atravessada pela igualdade e indiferença, deve ser a trincheira para derrotar o inimigo. Estamos com Marx, sem interesse, sem princípio e sem partido, quanto à conteúdos estanques, somente com interesse, com princípio, com partido da própria trincheira comunista. De um comunismo ácido, afinal, que alucina as estruturas do realismo capitalista abrindo uma fissura para a possibilidade de explodir a nossa trincheira como um subconjunto de forma de vida geral e irrestrita.

NOTA #7 [17/06/2020] (RJ I)

Fiquei pensando sobre duas colocações feitas durante a reunião. A primeira diz respeito à diferença entre ‘nós’ e ‘eles’ e à proposta de que o Ceii se aproxime dos outros, passando a ser um coletivo mais diverso, menos restrito, talvez, a pessoas que integram/integraram os circuitos acadêmicos.

Essa proposta tem como premissa a ideia de que o que está dentro do coletivo seja distinto do que está fora, sendo necessário que se traga ‘o diferente’ para dentro.

No entanto, parece que seria mais interessante uma concepção que embace a distinção ‘nós vs. os outros’, não porque traz o diferente para dentro, mas por tornar o ‘nós’ mais poroso e portanto, cada vez mais parecido com o que está fora. Assim, não se trataria de ‘integrar o diferente’, mas de transformar-se internamente para que conexões sejam feitas a partir das semelhanças, daquilo que se constitui em comum. Passa a ser necessário a manutenção de uma ‘plasticidade’ do coletivo, da constituição de formas de organização que sejam ‘indiferentes à diferença’.

A segunda colocação trata de como podemos pensar a articulação entre ‘responsabilidade’ e ‘complexidade’ em diferentes formas de concepção do mundo/sociedade. Se o liberalismo clássico parece colocar a complexidade acima da responsabilidade e as ideias sobre o socialismo preconizam a responsabilidade sobre a complexidade, parece importante tentar dar um peso forte a ambos os aspectos.

NOTA #2 [08/07/2020] (RJ I)

Queria deixar meu agradecimento ao autor(a) da “nota válida”, pois se eu já achava o mecanismo das notas interessantíssimo, agora também acho divertidíssimo. Além do mais, achei pertinente com o apego à formalização que, como vimos, está presente no CEII desde a sua pré-história.

NOTA #11 [10/06/2020] (RJ I)

Voltando à discussão do Manifesto Comunista, se os comunistas são os sem interesses, sem princípios ou partidos particulares, será que o ceii não assume essa identidade sem identidade bem? Afinal tem sido importante pro ceei essa ideia de não servir pra nada. Os inúteis são os desinteressados, os sem pressa são os sem princípios, os do Círculo são os sem Partido (particular). Será que a inutilidade do ceii faz dele ainda mais comunista?

NOTA #15 [03/06/2020] (RJ I)

Na última reunião surgiu o comentário de um membro muito inteligente: o novo CEII-app é uma tecnologia social inovadora! A única tecnologia social do comunismo tem sido o cooperativismo, e isso é o quão revolucionário esse app é.
Mas e se levarmos essa ideia já maravilhosa para além de si mesma? Será que o CEII inteiro não é uma tecnologia social? Um mediador entre objetivos e suas concretizações? Talvez mais especificamente o CEII seja uma técnica de produzir técnicas, uma organização que constrói um espaço comum para produzir outras organizações, outras ações (o que remete a outra figura do CEII como incubadora de projetos, e ‘se fecha o Círculo’).